Ele poderia ser o protagonista de um filme ruim, a pior escolha de um filme de terror ainda pior, mas foi escolhido por 57 milhões de brasileiros para ser presidente do Brasil. O Brasil onde você acorda e vive todos os dias, um solo habitado por uma maioria que não tem mansão, sítio nem iate para escapar da pandemia. Cinquenta e sete milhões acreditaram que esse solo, há tanto tempo pisoteado, daria melhores frutos com ele; não tinham como prever o nascimento da pandemia. A pandemia que matou 250 mil pessoas e é negada pelo mesmo homem que também negou e pisoteou aquela política que já não era grande coisa, mas parece fazer falta nos dias atuais. A política que precisamos agora está longe de ter protagonismo no Brasil: a política do consenso, do planejamento, da valorização dos pares, do interesse social acima da mansão individual. Como colocá-la em prática? Prefeitos e governadores tentam dialogar, mas não conseguem obter resultados da esfera federal.
Se dormimos pensando no amanhã melhor, logo cedo encaramos sua dicção ruim a expressar palavras piores. De mimimi a país de maricas, de jacaré a homem que fala fino, de golden shower a homossexual terrível, de vão-chorar-até-quando a fraquejar-ao-conceber-meninas e usar máscaras, pulamos de vocábulos e agressões verbais até chegarmos ao verbo morrer. Verbo temido, mas evitável, se tivéssemos a vacina negada por Bolsonaro.
O brasileiro que morria de bala perdida, de malária, de sarampo, de violência policial e civil, de fome, agora também morre de política, de descaso, de negacionismo, de cloroquina. Com o ataque de Bolsonaro ao distanciamento social, ao uso de máscaras e à vacinação, inaugura-se no Brasil a morte por presidente. Não é só a absurda incompetência em alcançar soluções que nos aterroriza diante do caos, mas o absurdo de tamanha eficiência em atrapalhar e desacreditar a população diante das poucas armas disponíveis contra o vírus.
Escrever em 2021 que meu país não sabe tratar seus idosos, não sabe organizar uma fila para vacinar e que são 250 mil os mortos pelo vírus é se deixar morrer um pouco ao testemunhar o cotidiano fúnebre do país. É mórbido ser testemunha do país que perde vidas por ter escolhido o presidente que aposta na morte, que nega o brasileiro, nega nossa eficácia em vacinação, nega a vida e o direito à saúde para afirmar o autoritarismo, o privilégio, a mansão de 6 milhões, a ditadura. Bolsonaro nega nossa existência de povo digno e capaz para afirmar sua trajetória errante e escorada em robôs das redes sociais.
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