Diálogos , Palestras e uma Pergunta


    Dentre as revelações dos diálogos publicados pelo The Intercept reserve um minuto para pensar nesta aqui: a contradição, a imprecisão em que caiu o procurador Deltan Dalagnoll, esgarçando os limites impostos pela lei e pela impessoalidade que o agente público deve ter. Ele acabou dando palestras para uma empresa citada em delação da  Lava Jato. É muita imprecisão. O Brasil alcançou um nível de debate público muito ruim com ajuda dos corruptos e dos agentes públicos que devem estancar o crime, mas não resistem aos chamados do 'mercado' e da atenção midiática.
    O que se lê e se ouve na imprensa, nas conversas informais demonstra uma subpolarização do debate. Saímos do macro, das ideias gerais sobre a administração do país e viemos para o micro mais uma vez, em que temos que decidir sobre a moralidade ou imoralidade de uma palestra. Para uns, o fato do procurador prestar um serviço a uma empresa que deveria apenas investigar é corriqueiro e perdoável, para outros uma prova de que não se pode confiar na Justiça.  Mas Dallagnoll não deve contas apenas a um espectro político, ele deve a todos os cidadãos, de todos os espectros.
    Agora, discute-se quem errou menos, quem fez menor ou maior mal ao país, se a turma que deveria investigar os crimes de corrupção com suas demonstrações de parcialidade ou se os corruptos que levaram embora nosso dinheiro. Não pense numa resposta correta porque esta não é a melhor pergunta.  
    A concentração neste ponto do debate impede que os envolvidos respondam da maneira que devem responder pelos erros cometidos. Mais importante é saber que Brasil teremos daqui a alguns meses, se as instituições não forem preservadas e não preservarem suas características e suas funções primeiras. O que foi revelado deve ser apurado e as consequências previstas em lei devem ser aplicadas a todos os envolvidos. Cada instituição deve tratar de suas obrigações sem ingerência daqueles que acreditam serem maiores que os cargos que ocupam.
    Fatos como esse não devem ser ignorados e nem tratados com estardalhaço, mas pense em como ficaram misturados os deveres do cargo e o afastamento necessário que um procurador deve ter, com o fato dele ter dado uma palestra justamente para uma empresa investigada na Lava Jato, operação que tem seu rosto como símbolo.
    A pergunta mais saudável é a que você responde a si mesmo, sem ter aferição por pesquisas, uma pergunta que você se faz e responde apenas com sua bagagem cultural, sem as cobranças públicas ou conhecimento da técnica jurídica, longe do julgamento dos amigos reais e da falsa vitrine das redes sociais: Você acha que seria melhor para o país não conhecer o conteúdo dos diálogos revelados pelo The Intercept ? rafael francisco fais
rafael fais

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