Você sente que há muita informação, muita polêmica (falsa?) e faltam explicação e entendimento sobre o que está acontecendo em relação à vacinação no Brasil, agora?
Vamos atentar para a confusão em torno da vacina: uma hora o presidente desdenha dela e de sua necessidade. Em seguida, não quer que o governador de São Paulo, João Doria, a obtenha, ou a distribua primeiro do que o governo federal. Parece estranho o fato de Jair Bolsonaro, agora, querer lançar primeiro que seu ex-amigo uma vacina desprezada por ele mesmo?
Seria apenas uma questão que passa pelo entendimento óbvio do presidente querer lançar primeiro a vacina para não perder para Doria, não parecer incompetente perante toda a população e não ter um adversário capaz de levantar a bandeira da imunização, nas eleições de 2022? Seria, se não estivéssemos falando de alguém que faz política apostando no caos e no personalismo, no ego e na terra arrasada, que ajuda a arrasar para se passar por salvador. De quem são essas declarações? “Mais uma que Bolsonaro ganha”, sobre a morte de um voluntário durante testes da CoronaVac (morte não relacionada com a vacina). “Se tiver um efeito colateral ou um problema qualquer já sabem que não vão cobrar de mim. Porque que eu vou ser bem claro, a vacina é essa”. Bolsonaro apostando no lado negativo, tanto dos esforços para testar a vacina quanto para o funcionamento normal, sem graves efeitos colaterais, do imunizante.
Vamos insistir mais um pouco: mas antes o presidente não tinha desdenhado da vacina, mandando o ministro da saúde, Eduardo Pazuello, cancelar a compra de 46 milhões de doses da CoronaVac, produzida no estado de São Paulo? Então, por que agora Bolsonaro se incomoda tanto com o início da vacinação pelos paulistas?
É uma questão de pura incompetência? O que isso quer dizer sobre o Brasil e a política atual do país em que vivemos?
Com informações privilegiadas e obtidas como chefe de Estado (caso se comportasse como tal), Bolsonaro sabia da necessidade de vacinar sua população mais cedo ou mais tarde, sabia que o planejamento passa por armazenamento, aquisição de seringas e distribuição para mais de 200 milhões de pessoas que vivem no continental Brasil.
Mas se a vacina seria aprovada um dia, e todos sabemos que num momento ela estaria disponível, afinal são 200 empresas ao redor do mundo trabalhando nisso, qual o motivo da aposta no caos e nas tentativas de impedir a campanha de João Doria? Por que ele mesmo não nutriu esforços para manter Luis Henrique Mandetta no comando da Saúde, que se mostrou preparado e tão bem avaliado pela população? Novamente, o presidente da República transformou algo positivo em negativo, tirando o popular ministro do cargo, que mais de uma vez disse ter explicado sobre a letalidade do vírus e a necessidade da vacina a seu superior. Mandetta demonstrou ter capacidade para planejar a vacinação no país, deixando claro diversas vezes sua aposta na ciência, nos dados, na comunicação clara com a população e com a imprensa. Mas foi tirado do cargo porque, mais uma vez, Bolsonaro transformou suas qualidades em defeitos, seu lado positivo, ter um bom ministro, em algo negativo: um ministro que não concorda com ele. Como se dados, ciências, pesquisas, resultados e eficácia de remédios tivessem que concordar com ele para poderem existir.
Mandetta deixou a pasta porque Bolsonaro não suportou alguém competente e de boa comunicação ao seu lado. Em quem apostou? Apostou em Nelson Teich, que saiu antes de um mês no cargo, dentre outros motivos por discordar do uso da cloroquina, propagandeada por Bolsonaro. Temos ministro, agora, Pazuello, que obedeceu o superior e desprezou 46 milhões de doses da vacina. Temos um incompleto plano, cujos signatários negam que tenham participado da composição. Mais caos, mais escândalo, mais fato negativo, confirmando a aposta desse governo na destruição, na separação e na negação de que existe uma pandemia que matou 180 mil pessoas de seu país, e continua matando. É como se para o presidente existir, todo o resto tivesse que dar lugar a Bolsonaro, sua opinião, sua maneira de ver o mundo, típico viés tirânico de se relacionar.
Apenas por lucro político?
Uma possível resposta as perguntas iniciais é o fato de ser mais vantajoso para o presidente impedir o início da vacinação, em São Paulo, porque ele consegue um motivo para atacar a conduta de Doria, como se a obtenção da vacina pelo governador fosse uma provocação. Ao considerar que eficiência é um crime, ele ataca a ousadia do governador em conseguir primeiro a vacina, e usa seu ataque como moeda, com sua equipe dizendo que é injusto apenas a população de São Paulo ter acesso a algo que pode salvar suas vidas, mesmo com a oferta para todo país. A moeda é trocada com sua base mais fanática para continuar apostando no caos, tirando a legitimidade dos adversários, um requisito para o fim da democracia como afirmam os autores Daniel Zilblat e Stevem Levitsky em “Como as democracias morrem”.
Bolsonaro ataca a competência de Mandetta e de Doria porque é algo que ele não possui. É mais fácil viver numa bolha, onde a existência de alguém melhor do que ele deveria ser aniquilada, do que perseverar para conseguir novas qualidades.
A política que se faz, agora, no Brasil, é essa de falar para polemizar, de atacar inimigos imaginários como vacina, comunistas, gays, Coaf, cientistas, competência (ministro Mandetta). Esse comportamento de aparência errática ressoa mais nas redes e na base eleitoral do que tratar publicamente do desemprego, da violência policial, da miséria, da fome, temas que Jair Bolsonaro não quer ou não sabe como resolver. É uma política do faz e desfaz, como proibir publicamente a compra da CoronaVac e depois deixar por isso mesmo. Como atacar o SUS, mas depois recuar. Como a ameaça de acabar com o programa Bolsa Família, para depois mantê-lo.
Mas como a vida é feita mais de perguntas do que de respostas, vamos a mais uma: qual o comportamento seria adequado ao governador de São Paulo? Ainda que Doria queira e possa usar seu plano de imunização como propaganda em 2022, numa campanha à presidência, e sua intenção não seja apenas a de salvar vidas, pergunto se João Doria deveria esperar por mais mortes e ficar quieto, sem se mexer em busca de uma vacina, diante da inércia do governo de Jair Bolsonaro? Essa resposta é mais objetiva. Claro que cada governador deve fazer o que é mais importante para proteger sua população e sua carreira política.
Afinal, que político não gostaria de ter seu nome associado ao pioneirismo na questão da proteção contra a Covid-19? Você acha que Doria deveria copiar a inércia do governo Bolsonaro em relação à vacina? Não é uma opção lógica, ainda mais porque São Paulo é a sede de um dos maiores produtores de vacinas, o Instituto Butantan.
Vamos deixar de lado o real objetivo de Doria correr pela vacina, por um instante. Bolsonaro tem mais a ganhar atacando a eficiência (caso a vacina e o plano funcionem) do que se não tivesse nada para atacar, nada a falar do adversário Doria. Assim, seu governo continua na jogada de transformar um fato positivo, o uso de uma vacina necessária, em algo negativo, como faz na maior parte das questões relativas ao país, em que se envolve. A chegada da vacina é atacada, o acontecimento negativo como a pandemia é usado para ele atacar a imprensa, a China, os governadores e os prefeitos, como fez no momento de aprovarem o fechamento do comércio, por exemplo. Uma ação necessária e que foi tratada da mesma maneira por Bolsonaro, no ataque e no desprezo, como que deixando a “culpa” para quem tomou medidas difíceis, inevitáveis diante de um vírus que mata, mas pode ter sua letalidade reduzida com distanciamento e isolamento social.
Na solução de temas atuais do Brasil, essa política não funciona porque desconhece união, responsabilidade por possíveis erros (se a vacina não tiver o efeito esperado), respeito por posições contraditórias. Não se pode perguntar quando a resposta traz escândalos e irregularidades à tona, como no caso da rachadinha do filho Flavio Bolsonaro. Perguntado sobre a vacina, o presidente diz que a quer, mas “se tiver um efeito colateral ou um problema qualquer já sabem que não vão cobrar de mim”. Sempre uma resposta que o separa de todo o resto, dos prefeitos, da pandemia (ele diz estar imune por já ter sido contaminado), dos ministros, de tudo aquilo que não seja ele, apenas ele.
Para a política voltar a fazer sentido, o Brasil precisa de políticos que consigam se fazer entender e que entendam as demandas da população, sem criar atritos, situações conflituosas inexistentes como a do juiz que obrigaria alguém a tomar a vacina. Políticos que permaneçam durante seus mandatos na mesma dimensão de realidade que seus governados estão, sem transferir, como faz Bolsonaro, o mandato para uma fatia paralela de realidade, o que o fez parecer fora de si, principalmente ao falar que o país vive um “finalzinho de pandemia”, quando poucos dias depois contamos mais de 900 mortes em 24 horas, e seu governo não consegue apresentar uma plano confiável de vacinação contra a Covid-19.
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