Eleições - O maior desafio da democracia atual é sobreviver e resistir à ultradireita.

 

    

    Políticos da ultradireita tem se aproveitado de cargos esculpidos na democracia com sistema eleitoral do qual se utilizam para chegarem ao poder. Em seguida, negam e rechaçam as características do regime que possibilitou suas eleições. Usam métodos de enfraquecimento de instituições democráticas, como fake news e uso de robôs nas redes sociais, para realizarem projetos ideológicos medíocres em detrimento de liberdades individuais. Criar instabilidade política por meio de declarações e discursos diversionistas é a gangorra na qual o país balança, agora, tendo de um lado um tirano mal disfarçado de político, que destrói também a já desgastada reputação dos militares diante da história e de outro um povo que precisa como nunca da eficácia dessa mesma democracia.

 

    Essa democracia que não pode ser portátil para que cada um a carregue para onde bem entender e faça dela o quiser. Tome-se o caso do foro privilegiado que o presidente e seu filho senador, Flávio, atacaram em época de eleição e, hoje, dele se utilizam para se proteger e enfraquecer as investigações e o andamento de processo no qual Flávio aparece como beneficiário de rachadinha de salários de assessores em seu gabinete. Se o foro uma hora privilegia seus adversários, eles o atacam e usam como discurso o banimento da regalia para aparecem como defensores da democracia. Se o foro serve para impedir que um deles seja investigado e condenado, dele se utilizam como se o mesmo foro especial fosse um mantenedor da democracia, barreira contra a injustiça da qual o senador seria vítima. Pior do que a falta de coerência é o uso da democracia como se ela fosse moeda compradora da impunidade ou peça de retórica política demagógica. 

 

    A existência da democracia como conceito e como forma de governar devem ter o respeito e a consideração das instituições e das autoridades, criando exemplo a todos que vivem num país sob regime democrático. Ela não pode ser usada como desculpa, como ideologia, como favorecimento pessoal e familiar por quem tem forte influência sobre ela, principalmente presidentes da República. É obrigação de todos respeitá-la, pois quando apenas um grupo ou pessoa querem dela se beneficiar, ela é diminuída, desvirtuada. Embora seu aperfeiçoamento seja necessário, somar ou retirar da democracia características que lhe são inerentes porque se quer resolver questões pontuais só serve para confundir a população e enfraquecer o enfrentamento dos seus problemas.          

 

    Prover instituições sólidas, ocupadas por pessoas com preparo técnico e sem partidarismo é desafio do Brasil nesses tempos e no futuro bem próximo, somado ao de impedir e identificar atos e narrativas antidemocráticas.

 

    Nestas eleições municipais e democráticas, testemunhamos o início do que pode vir a ser o fracasso de discursos totalitários que querem fazer existir apenas um lado ultra personalista de atores ocupantes do jogo eleitoral. Vozes não habituais da cena política, mas presentes em toda sociedade desde sempre, se inseriram, foram ouvidas e ganharam a confiança dos eleitores em todas as partes do Brasil. A eleição de Erika Hilton (PSOL), Elaine do Quilombo Periférico (mandato coletivo PSOL), Carol Dartora (PT), Isabelly Carvalho (PT), dentre outras, mostram o quanto a democracia se renova com o respeito e a potencialidade de várias narrativas, com o acolhimento a todas as maneiras de existir e o respeito ao direito de se expressar descritos na Constituição Federal. 

 

    Nas eleições municipais democráticas de 2020, nenhum partido foi mandado para a “ponta da praia” como se referiu Jair Bolsonaro, em outubro de 2018, para uma multidão de apoiadores, ao falar do PT e ao falar de um conhecido local de tortura e interrogatório usado pela ditadura. A correção e autocrítica desse e de outros partidos, além de punição de seus crimes, tem instituição e processos certos para seu ajuste de contas com a sociedade e a justiça. Não é função de candidato ou de presidente aniquilar partidos consagrados pela democracia e pelos eleitores, nem estimular o ódio entre eles. Candidatos se filiaram a esse partido de esquerda, ao PSOL de esquerda e se elegeram na ponta da urna, na ponta do voto. Tal fato aconteceu porque o Brasil tem limites e instituições para impedir a vontade soberana de um presidente que usa métodos ultradireitistas e prefere a verborragia tirânica ao se expressar dessa forma errada. Erika se elegeu por um partido de esquerda na mesma cidade onde governa o prefeito mais identificado como direita (Bruno Covas); os dois devem conviver se ele for reeleito, como se deseja que seja plural a cena democrática brasileira.

 

    A democracia só deve ser portátil quando a levamos na memória para que cada um saiba que ela está a serviço do país, e que todos possam entendê-la e ter em mente o que a fortalece e o que a diminui, com o efeito de ter a consciência constante da necessidade mais que vital, nos tempos atuais, de mantê-la funcionando. Devemos cultivar seus princípios, imbuídos de sua função agregadora e jamais excludente de raça, partido, orientação sexual, religião ou espectro político. As eleições servem para nos lembrar da importância da democracia e alavancar sua preservação.

 

 Rafael Francisco Fais

 Rafael Fais

 Rafael Fais - jornalista

 




 

   

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