Democracia ou ditadura? Parece um absurdo desnecessário perguntar qual a diferença entre elas e qual delas é melhor para o país, mas quando há grupos que pedem pela volta da ditadura no Brasil e acontecem ataques constantes à instituições basilares da democracia o absurdo dá lugar ao questionamento sobre como manter a melhor democracia possível e protegê-la de ameaças que podem ser alertas ao nascimento de regimes autoritários ou ditatoriais.
Se é a liberdade de expressão nativa na democracia que permite a um grupo de pessoas manifestar suas aspirações a viver e a ser comandado por uma ditadura, como podemos defender a democracia e evitar ataques ou articulações para que ela seja substituída pela sua antagonista maior, a tirania?
Imagine as seguintes cenas antes de uma eleição, obrigatoriamente veiculadas na TV e nas redes sociais: os candidatos à Presidência destacam aspectos positivos da trajetória política e da personalidade de seus adversários. Se parece apenas uma ideia ingênua, considere a falta de empatia, de respeito e de amplidão de discursos que movem uma campanha política num país polarizado como o Brasil. Pense na possibilidade ingênua dessa cena como o antídoto para revelar personalidades agressivas, ditatoriais e que não desejam vencer e governar, mas aniquilar os adversários e permanecer no poder, usando a violência verbal e as instituições para afastarem críticas, perguntas e evitarem esclarecimentos sobre acusações. Tiranos tem dificuldade de apreciar e reconhecer as qualidades alheias, a existência de caminhos, possibilidades e visões de mundo além do próprio umbigo. Os partidos dessas personalidades teriam que apresentar explicações e justificativas para manter pessoas assim em seus quadros.
Uma lei não-escrita para a sobrevivência da democracia diz que postulantes ao cargo político aceitam seus adversários e admitem a legitimidade da participação deles na disputa. Que o reconhecimento seja público e divulgado ao eleitor.
Na reflexão sobre o momento atual de polarização e de vociferação contra jornalistas, imprensa, ONGS, indígenas, cultura, intelectualidade e tudo mais que não seja o bolsonarismo ou o petismo, outra ideia ingênua me visita como mecanismo de proteção da democracia. Quando um presidente ataca a imprensa, mente sobre a eficácia de remédios e coloca em risco a população, coloca em situação vexatória uma criança de dez anos, ele teria que fazer um curso a respeito daquele tema e apresentar publicamente à população o que aprendeu, discorrer sobre quais ideias a respeito do tema ele aperfeiçoou, quais ele manteve e porquê, qual significado aquele episódio teve para seu entendimento do assunto e quais artifícios ele implantaria para evitar novamente tais transgressões. Não vimos os últimos presidentes e nem o atual se especializando, fazendo cursos, estudando e tentando melhorar seus currículos. Você consegue imaginar um profissional que fica 4 ou 8 anos sem fazer nenhuma atividade que lhe traga algo novo, que lhe ensine sobre as mudanças e novas necessidades, novas configurações dos assuntos importantes do seu país e do mundo? Todos nós precisamos de desafios intelectuais, de revisão e atualização de nossas ideias e de nossos conhecimentos. Claro que os presidentes também precisam. Como Jair Bolsonaro está se preparando para enfrentar o prolongamento da epidemia? Como ele está compensando sua alegada deficiência em economia agora que dirige uma nação de mais de 200 milhões de pessoas? Qual estudo ele está fazendo para entender o papel das mulheres na sociedade? Que tipo de conhecimento ele ganhou nos últimos dois anos para entender mais sobre a sexualidade humana, os direitos e necessidades da população LGBTQ+ no Brasil?
Quanto mais as instituições, os partidos e a população aceitarem provocações e testes ao limite democrático, mais difícil é o retorno a um ponto de normalidade em que os governos tenham que honrar as leis e o compromisso com a totalidade da população e não apenas encenar para sua base eleitoral.

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