Política e notícia : é inaceitável trocar 2020 por 2022


  
O Brasil é um país difícil de entender, mas facilmente levado a simplificações.



    Teve corrida com ema, teve mais reclamação contra o presidente Bolsonaro no Tribunal Penal Internacional, teve colunista político brincando com o tema do fim do mundo em Brasília de maneira inusitada, e o youtuber mais famoso do Brasil virando notícia no New York Times. Além disso, as notícias contaram que a Lava-Jato, um dia símbolo forte de tudo o que era bom no país, deve ter seu coordenador afastado, depois de perder sua figura maior, hoje ex-juiz Sérgio Moro, com menos tempo de mídia para discursar contra a corrupção. Também teve, de novo, notícia sobre a criação de mais um imposto e a absurda e constante apologia da cloroquina pelo presidente (!) para confundir ainda mais a população sobre a prevenção e tratamento da Covid.
    Teve prisão e soltura de blogueiro e jornalista, cancelamento de contas do Twitter, prisão e soltura de quem ameaçou os ministros do STF, teve Queiroz achado no sítio, preso e solto, perdido de novo no meio do noticiário que hora nos conta que a Covid diminui e que estamos perto de um respiro, hora que ela será eterna entre nós, deixando nosso mundo emocional de up side down. São variadas notícias que para muitos levam ao entendimento de que o presidente do Brasil não deveria ser quem é, já outros entendem que ele está no lugar certo e com direito à reeleição. 
     
“Acabaram com o Emprego”

    Enquanto tantas notícias brigam por (e com) nossa atenção, uma das que teve mais destaque afirmava que Jair Bolsonaro pode estar com seu emprego garantido até 2026, sendo vencedor em qualquer cenário de segundo turno em 2022. Ainda que seja uma notícia com base em pesquisas, temos que refletir sobre sua utilidade, e se ela não serve apenas para aumentar ainda mais o clima de corrida presidencial do que para informar. Logo depois da divulgação dos números, o presidente afirmou “acabaram com o emprego no Brasil e estamos aí para consertar isso”. A notícia parece ser mais útil para quem precisa manter o clima de campanha eleitoral e falha em  apresentar ações práticas do que para o país que precisa de foco no complicado momento que enfrenta. 
    O brasileiro necessita de empenho dos políticos na solução de seus problemas atuais. Estamos no segundo ano de um mandato presidencial, não em ano de campanha. É estranho que a falta de emprego de uns possa ser usada como a manutenção do emprego de um outro, mesmo que esse outro já tenha dito que não é sua função criar empregos

    O Brasil é um país difícil de entender, mas facilmente levado a simplificações. Nenhuma análise ou notícia consegue compreender toda a dimensão de viver num país que paga um dos impostos mais altos do mundo e ainda quer mais um. Uma é a dimensão da campanha política, outra a dimensão de governar e fazer políticas que possam melhorar o presente, sem culpar o passado ou apagar o que foi dito nele, logo ali atrás, para vender um futuro que não existe ou não chega, não até a próxima eleição futura que alguns confundir com o agora.
    Antecipar 2022 é forçar outra dimensão de que tudo parece se resolver nas urnas. Alguns atores políticos e públicos precisam que 2022 seja hoje porque não conseguem administrar um 2020 com a pandemia, com a violência policial e com sua própria falibilidade diante do eleitor. É mais fácil seguir com a triste filosofia de que o Brasil é o país do futuro, quando o presente nunca é tempo bastante para reverter 12 milhões de desempregados, 2,8 milhões de alunos fora da escola, evitar 90 mil mortos pela pandemia. Trocar 2020 por 2022 só é possível para quem vive em palácios e em assembleias, pois a população terá que lidar com cada minutinho desse complicado e difícil ano que estamos vivendo.

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