Projeto e futuro não combinam com morte, embora ela esteja no horizonte de todos os cidadãos de qualquer país
Nesta quarta, quem lê as notícias, artigos e as redes sociais dá de cara com a repercussão de um artigo em que um jornalista da Folha deseja a morte do presidente Jair Bolsonaro. Veja o ponto em que estamos encalhados. Um presidente que estimula o ódio desde sempre, fazendo apologia ao estupro, à tortura, ao preconceito de raça e de orientação sexual é o mesmo que tem o direito de defesa do ódio que ele adubou. Bolsonaro já desejou a morte da então presidente Dilma Roussef de "câncer ou infarte", já disse que uns 30 mil deveriam morrer e que o presidente Fernando Henrique Cardoso deveria também ser fuzilado. Mesmo assim, o presidente merece ser defendido. Seu ministro da Justiça está ocupado em colocar o jornalista sob os termos da Lei de Segurança Nacional, não tivesse ele tantas ameaças reais a vencer no Brasil de 2020. É tragicômico.
As redes sociais e os formadores de opinião se dividem entre o que seria pior: desejar a morte do presidente ou ter um presidente que deseja a morte de seus adversários. Nenhuma resposta leva a uma ponte que não seja angusta, aquela que direciona apenas a um lugar, diminuindo o horizonte e estreitando a escolha de quem a atravessa. Angústia é não conseguir enxergar outro caminho, escreve o turco e nobel Orhan Pamuk num de seus romances. Não conseguimos ver outro lugar, sentir outra coisa, ter outra perspectiva.
Um Brasil que se ocupa em distinguir ódios e hierarquizar o direito de quem os sente precisa se curar para urgentemente discutir projetos e caminhos que ampliem a existência de seu povo para além da mínima sobrevivência diária.
Projeto e futuro não combinam com morte, embora ela esteja no horizonte de todos os cidadãos de qualquer país. Veja que a morte, num momento em que 65 mil famílias estão de luto no Brasil, virou debate numa outra seara: pode-se desejar ou não a morte de alguém sem ser punido? A morte dos milhares que se foram com a pandemia e a maneira de amenizar as consequências para quem fica é que merecem encontrar tamanho eco na indignação da esquerda e da direita.
Desejar que seu adversário intelectual, moral ou político desapareça é desistir de lutar e de vencer com os artifícios do bom combate. O jornalista precisa se curar de seu ódio.
Bolsonaro precisa se recuperar dele mesmo, após se curar do coronavírus. Admitir seus erros, rever suas políticas e a visão que tem das minorias, dos pobres, dos que tanto precisam de administradores e não de ideólogos. Faria bem a si mesmo e ao país que confiou nele. O outro lado também se beneficiaria, já que um presidente governa para todos e não apenas para seu eleitorado.
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