"Dallagnol deixou claro que a Lava-Jato é um movimento político". A frase é do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM). Essa afirmação é umas das mais impactantes declarações da política recente e serve como um sinalizador sobre possíveis rumos da agenda do poder. Deltan Dallagnol é o procurador de justiça e coordenador da operação.
Nos últimos anos, ficamos acostumados aos escândalos sequenciais com prisões espetaculares de empreiteiros e políticos. Agora, são pequenos escândalos em todos os lugares, no Twitter dos ministros, nas declarações de Bolsonaro no cercadinho da entrada do Planalto onde ele pauta a polêmica da hora para depois dizer que não era bem assim. No meio de tantas falas intencionalmente escandalosas, a declaração de Rodrigo Maia pode ter menos impacto, mas é das mais importantes. Veja que foi na mesma semana em que a Lava-Jato aterrissa com força sobre José Serra, demonstrando apetite novo para continuar viva e na mídia, agora a desvendar as artimanhas do PSDB, partido que muitos veem como blindado pela operação e pela mídia. Na mesma semana, os nomes de Rodrigo Maia e de David Alcolumbre viraram notícia, encontrados em listas de investigações da operação, mas de forma camuflada, talvez para serem investigados sem obedecer os trâmites necessários.
A declaração de Rodrigo Maia tem algumas potenciais funções. Se há a necessidade de agora carimbar a operação Lava-Jato como um movimento político, Maia quer escancarar que ela não é neutra o suficiente para ser justa, o que pode ser uma tentativa de diminuir a fé cega que o brasileiro depositou sobre a força-tarefa. Pode sinalizar ainda que a casa que Rodrigo Maia preside não está mais a fim de demonstrar apoio (nem que seja da boca pra fora) ao combate à corrupção como ele foi desenhado pelos procuradores e pelo juiz Sérgio Moro, então herói da vez, antes de entrar para a política como ministro de Jair Bolsonaro. O combate à corrupção vai precisar se renovar e contar com nomes que sejam neutros e com moral intacta. Não é mais apenas a velha política a ser o alvo fácil da opinião pública, mas o velho combate ao crime. Terão que inventar um jeito novo, sem PowerPoint, sem prisões de madrugada. Mais importante: sem delações premiadas?
Se está claro para Maia que Dellagnol demarcou sua operação como política, o presidente da Câmara pontua com sua afirmação que ou se faz política ou se faz justiça, pois representar as duas ao mesmo tempo não dá.
Mais uma seta do que pode estar no cenário político com o carimbo de Maia sobre a operação é o ajuste do discurso de Moro em 2022, pois Dallagnol já está falando que querem atacar a Lava-Jato para minar a candidatura do ex-juiz. Se grandes blocos políticos aceitarem usar o carimbo de operação política, uma campanha focada no combate à corrupção, em 2022, será facilmente atacada como perseguição política à partidos, qualquer um deles usando a marca de acordo com a conveniência. A eleição de 2018 foi uma pequeníssima amostra do que será 2022.
Rafael Fais
Se está claro para Maia que Dellagnol demarcou sua operação como política, o presidente da Câmara pontua com sua afirmação que ou se faz política ou se faz justiça, pois representar as duas ao mesmo tempo não dá.
Mais uma seta do que pode estar no cenário político com o carimbo de Maia sobre a operação é o ajuste do discurso de Moro em 2022, pois Dallagnol já está falando que querem atacar a Lava-Jato para minar a candidatura do ex-juiz. Se grandes blocos políticos aceitarem usar o carimbo de operação política, uma campanha focada no combate à corrupção, em 2022, será facilmente atacada como perseguição política à partidos, qualquer um deles usando a marca de acordo com a conveniência. A eleição de 2018 foi uma pequeníssima amostra do que será 2022.
Rafael Fais
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