Ditadura? A primeira vez a gente nunca esquece, a segunda a gente luta contra

Era 2019 e eu estava num supermercado. Eu olhava objetos para cozinha, objetos bonitos e afiados, eu estava ouvindo alguém falar no rádio sobre as ameaças e elucubrações de um senador sobre a volta da ditadura, um ministro do governo Bolsonaro, além do senador, também falava sobre reeditar o AI5 e seus "benefícios". Foi a primeira vez que ouvi alguém do governo falar abertamente sobre a volta da ditadura. Foi inevitável pensar em como seria andar ali, naquele mesmo supermercado, sob um regime ditatorial, imaginar como seria caminhar pelas ruas do Brasil de um ditador, quem sentiria seus efeitos e quem passaria por ela como se nada estivesse acontecendo. Afinal, infelizmente, existe um Brasil para cada bolso, um Brasil para cada cor. A ditadura latino-americana do século 21 seria também injustamente segmentada? Seria ditadura para todo mundo?

Me virei e vi um jovem servindo os cafés e doces no balcão da padaria do mercado. Numa ditadura, por ser tão jovem, ele estaria ali, seguindo sua vida, ou teria sido chamado para compor as Forças Armadas, impotente diante do obedecer-e não-questionar desejado por uns, mas amedrontador para outros? Que pensamentos ele teria se estivéssemos numa ditadura, hoje, em 2020, uma ditadura latino-americana de um país onde mesmo com regras quase claras e instituições há funcionamentos diferentes para uns e para outros?


Os belos objetos que estavam nas prateleiras e a voz do senador me serviram, então, de uma inspiração negativa, uma contaminação das palavras, do café que acabara de colocar sobre a mesinha da padaria do mercado, bem de frente para a prateleira. O rádio continuava enviando a voz do senador e suas pregações sobre acabar com a democracia. Sim, continuava ali, no meio da manhã, enquanto eu pensava no porquê do rádio estar nas notícias e não nas músicas. Já estava acontecendo? Aquele ditado maldizente já fazia parte, ela já tinha começado e eu não havia percebido? Impossível. O jovem do café ainda poderia se cansar, encher o saco, sair dali e nunca mais voltar. Mas, se fosse ditadura, ele não poderia sair das Forças, mudar de ideia, ir para outro lugar, ser livre para fazer nada ou fazer tudo. Teria que usar as roupas que mandassem, fazer os movimentos estabelecidos, tom de voz, olhares e marcha, tudo verificado, nada fora do lugar, talvez seus sonhos, sua alma, seu instinto, sua intimidade, toda sua existência num outro lugar que não a democracia. Um lugar que só se sabe como funciona, se é você quem determina o funcionamento. Perguntar sobre as regras já pode ser uma regra esticada. E ele não sabia, eu também não, nem você.


Essa má inspiração me trouxe a palavra tortura, uma palavra que jamais se separa da palavra ditadura, que sempre está lá, sendo contada e relembrada para que não se esqueça o horror, para que ele não aconteça de novo.  Recentemente, no nosso país, essa palavra soturna e maldita está sendo usada por quem está no poder como motivo de orgulho, quem a praticou é motivo de admiração pelo atual presidente, eleito nas urnas eletrônicas e  democráticas, mas que parecem não lhe servir mais. Ser eleito por um povo livre, sim; administrar um povo livre não consegue. Há muitas críticas, muitas ideias, olhares, almas, intimidades, muitos sonhos e instintos fora do lugar para quem, propositalmente, confunde competência com autoridade.

É 2020, o vereador Carlos Bolsonaro está num supermercado ou numa loja, é filmado e sua voz e imagem caem nas redes sociais numa sexta-feira. Seu pai, o presidente, participou de atos antidemocráticos recentemente, atos em que manifestantes pediram o fechamento das instituições que garantem a democracia (a mesma que o elegeu), a que seu outro filho, senador Eduardo Bolsonaro, deseja sufocar com outro AI5. O general e ministro Luiz Eduardo Ramos diz em entrevista, na mesma sexta, que as Forças não vão dar golpe, mas que "o outro lado não estique as cordas".

Neste supermercado, um homem pergunta ao vereador se é ele quem comanda o gabinete do ódio, diz também que deseja saber quem matou Marielle Franco. O homem ainda tem o direito de ir e vir, perguntar tudo e não perguntar, ser inconveniente ao poder, mas sem desaparecer como desapareciam os questionadores durante a ditadura. Ele pode escolher em quem votar em 2022, pois vive num país onde não se troca democracia por ditadura, como se ela fosse um produto que se troca por outro num supermercado. Poderá mesmo?
Rafael Francisco Fais







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