O Brasil além de Moro e Lula

    Nos últimos dias, a revelação de diálogos sensíveis entre o então juiz Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol fez o Brasil reviver um pouquinho da repetitiva polarização política que impede a abertura de novos caminhos para o país.
    A mídia ficou logo dividida entre os que condenaram Moro de cara e os que saíram em sua defesa mesmo antes de conhecer o tamanho e o conteúdo total da história (o que não temos até agora). Tal comportamento serve mais para mostrar a opinião e o lado de quem partiu para ataque ou defesa do que para explicar a real dimensão dos diálogos e suas consequências.
    O método do site The Intercept também foi questionado e continua sendo, pois não estamos acostumados a esse tipo de jornalismo e suas implicações. Confiável ou não pela maneira como obteve o acesso aos diálogos, o site se inseriu na história política do país e suas revelações são incontornáveis. O que antes eram rumores sobre parcialidade, tratados como teoria da conspiração por muitos analistas ganhou contornos de infração real na opinião de especialistas e  autoridades críticas ao desempenho de Moro enquanto juiz. Vivemos num país onde há espaço para o questionamento e para as respostas do agora ministro. Ambos são saudáveis e fazem parte da democracia.
    É saudável também que o consumidor dessas notícias e a própria mídia questionem os métodos e os conteúdos da reportagem que mostra as duas autoridades trocando opiniões sobre o andamento da  Lava-Jato. Claro que as bandeiras iriam se levantar rapidamente, tanto pela condenação das conversas e seus conversadores quanto pelo "deixa-disso". Uma consequência lamentável é ver formadores de opinião tentando apagar a importância da história, ingenuamente tratando o público como se não houvesse internet e centenas de opiniões diversas sobre a publicação dos diálogos. A força do que foi publicado é inegável e a situação me lembra do título "Os fatos são subversivos", livro escrito pelo jornalista inglês
Timothy Garton Ash, que combina muito bem com os  acontecimentos recentes na nossa política.
    Outro ângulo do caso da revelação dos diálogos Moro-
Dallagnol, que segundo o editor Glenn Greenwald ainda está na fase inicial, é o que faz questionar sobre como são construídas as imagens dos poderosos e porquê políticos e membros de governo não devem ser noticiados como heróis; um tratamento que deveria ser evitado a todo custo pela imprensa. Humanos são falíveis em qualquer área: sejam jornalistas, juízes, ministros, marceneiros ou presidentes. Pense nisso quando estiver lendo qualquer perfil escrito sobre a grandiosidade de algum político, ator, jogador de futebol ou que pessoa for. Não precisamos de heróis, eles não cabem no mundo de hoje, precisamos de pessoas que assumam sua humanidade e seus erros, que compreendam o dia a dia do cidadão comum para que possam contribuir com a vida dos brasileiros. 
    Essa contribuição passa pelo obedecimento das leis aplicadas igualmente para todos, seja qual for a posição da pessoa.
    Heróis criam distâncias e o cidadão precisa de proximidade para que seus problemas possam ser também vivenciados e compreendidos por quem governa. Precisamos quebrar a lógica brasiliana de que existem políticos que não podem ser presos e juízes que não podem ter sua imparcialidade questionada para que o país não encalhe em ser apenas uma torcida hipnotizada pelas retóricas de cada um. Existem outros possíveis presidentes e outros possíveis juízes no Brasil.

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