Se não foi uma estratégia de destruição e de desvio da atenção para as coisas que Bolsonaro não consegue manter sob controle_como as denúncias contra seu filho e seu protegido ministro do Turismo_o compartilhamento de texto que aponta críticas e faz futurologia apocalíptica para seu governo é o preenchimento antecipado de uma lacuna que a imprensa e a oposição ainda não tinham recheado. Antever o caos e dar voz a vaticínios que poderiam surgir no horizonte e espalhá-los, ele mesmo, concede ao presidente o pretenso controle da pauta nas redes, nas capas de sites e jornais. Como não haveria nada mais trágico do que foi compartilhado ali, fazer a imprensa, oposição e os cidadãos questionarem se o país é ou não ingovernável (e se seu governo está no fim) proporciona uma visão antecipada, uma pequena amostra de como vão reagir esses atores em caso de tentativas reais de impedir seu mandato.
A notícia mais indesejada pelo governo, as denúncias contra Flávio Bolsonaro sobre desvios na Assembleia do Rio, é uma das manchetes que passa a disputar espaço com o post polêmico em todas as mídias. Não que não sejam noticiados esse e outros fatos, mas a atenção do noticiário e do público se dissipa, o convite do presidente para saírem às ruas e apoiá-lo ganha o tom de urgência que não havia antes para "salvar" o governo. Como consequência, a bandeira e promessa do combate à corrupção passam cada vez mais longe de estarem no centro do debate e da tomada de ações reais a serem implementadas, para falar nesse exemplo apenas. Se foi proposital ou não, não temos como aferir e não importa mais, porque o resultado da publicação na rede social de Bolsonaro já ganhou toda a atenção, causou mais divisão entre seus apoiadores, além de ter o efeito de mostrar quem ainda está a seu lado e quem já desacreditou de sua logomaquia de vai e vem.
Quem ganha com isso?
Para quem acha que a comunicação do presidente em sua rede social não é calculada, e que são, sim, apenas postagens que ele (ou seu filho) faz sem cálculo político que objetive ganho, resta questionar se faz bem para ele ou para o país. Não parece, sob aspecto algum, que discutir golden shower, acusar a classe política e as corporações coloque o país e a população num lugar melhor. Que medidas o presidente está tomando para evitar possíveis demandas que paralisariam sua administração?
Se você quer realmente conhecer como algo funciona, tente destruí-lo
Sob essa óptica da psicologia, talvez nem mesmo o presidente esteja agora entendendo muito bem o seu mandato e os efeitos causados a seu poder político pelos seus tweets e escolhas para os ministérios mais próximos e com maior visibilidade. Sua exposição desajeitada na internet é útil apenas para mostrar o que ele não quer, mas o que esse Governo quer de fato para políticas públicas, para a construção do consenso honesto que possibilite medidas saudáveis para a população, isso não fica claro. Geração de emprego e prevenção da perda de postos de trabalho atuais, por exemplo, é um assunto que não está sendo discutido com a força e intensidade necessárias quando já se fala em estagnação econômica.
Se olharmos apenas esse aspecto de sua presidência, tem-se a sensação de que Bolsonaro quer mesmo implodir o que já chamou de velha política (para depois recuar) e tudo aquilo que ele acredita não funcionar de acordo com seus valores, mas o fato é que o presidente fez parte do congresso por décadas e, dizer agora que esse mesmo congresso não serve, lhe atravanca a governabilidade, sem entrar aqui no fato disso ser ou não verdade, não lhe ajuda a governar e a manter uma base necessária para evitar o perigoso isolamento do Executivo.
Se quer destruir o que chamou de velha política, a classe da qual fez parte como parlamentar, precisa colocar algo funcional e livre de desconfianças no lugar. Sabemos que isso não é possível agora, dado a biografia e as acusações de algumas pessoas que estão ao lado do presidente, algo que o faz também parecer obsoleto por permitir um ministro réu confesso no recebimento de caixa dois e outro com gravíssimas acusações sobre gestão de dinheiro do fundo partidário, além de ameaças denunciadas pela deputada Alê Silva (PSL).
É urgente planejar e colocar em prática um manual da construção e da organização, pois com o manual da desorganização bolsonarista o Brasil não decola. (Rafael Fais)
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