Uma pequena amostra da política no Brasil em 2019.

     Em poucos dias tivemos uma indigesta amostra de como está o Brasil em 2019. Acompanhamos as notícias sobre a prisão e soltura de ex-presidente Temer, a comemoração de ditadura e a discussão inerte sobre 1964, viagens com peso ideológico descompensado do presidente Bolsonaro aos EUA, ao Chile e à Israel. Neste ponto, ao afirmar que o nazismo é de esquerda, vimos um Bolsonaro querendo compensar o desconhecimento de Economia se arriscando a dar aulas de história. Historiadores tem mais essa desinformação a corrigir em meio a tantas outras sobre a barbárie cometida contra o povo judeu. A diferença é que essa vem de um presidente da República. Por sorte, a história pertence a todos e não a um único político num momento ruim, expressando seu ponto de vista enviesado.  

De volta ao Brasil
 

    Enquanto isso, a super midiatizada reforma da Previdência estava encalhada no Congresso. Na tentativa de desencalhe, assistimos as palavras inadequadas do deputado Zeca Dirceu (PT) contra o ministro Paulo Guedes. Se isso não é show, o que será? Mas o país precisa de mais show? Claro que não. É fato o  brasileiro estar entupido de escândalos e espetáculos políticos. O país não precisa de piadas, metáforas, apropriação de termos como os usados na audiência sobre a reforma. Precisa de palavras claras, questionamentos reais e esclarecedores sobre como fica a vida de quem não pode mais trabalhar e precisa do dinheiro da Previdência para seguir sobrevivendo.
    Conta a favor do Governo que o ministro esteve lá, adiou a apresentação como sabemos,  mas foi até os parlamentares e falou sobre a reforma; encarou os políticos e fez o seu papel. Críticas e debates são muito bem-vindos quando o tema é tão anguloso como as alíquotas e novas regras para a aposentadoria. Mas o que fica mesmo na memória, e ganha a atenção da mídia, são as palavras mal escolhidas e o achincalhe da ética e da compostura. Junte-se ao tchutchuca e tigrão, resgatados de 2001 por Zeca Dirceu, o golden shower do presidente, o rosa-e-azul da ministra Damares. Veja que os lados são opostos (Zeca é do PT), mas a falta de noção e respeito com o eleitor respiram forte dos dois lados. Governo e oposição tem reformas diferentes em mente, mas nenhum deles apresenta um líder capaz de colocá-la em vigor. Até o consenso e aprovação da reforma, a qualidade do debate precisa ser valorizada, estar sempre na mente daqueles eleitos para representar o povo.
    No Ministério da Educação, a imagem do Brasil de 2019 é de um país que tem de suportar as confusões de Ricardo Vélez e sua hora extra tão cara à nação, onde crianças fora da escola, professores mal pagos e  verba desviada de merenda são problemas que ele ignora. Prefere a provocação que é falar em reformulação dos livros didáticos para explicar a ditadura para crianças. Se fosse uma ficção, poderíamos acrescentar a cena em que alguém afirma ser melhor a criança ficar fora desse tipo de escola. Mas é um país democrático, então é preciso pedir que ele saia do cargo. Ou o presidente quer usá-lo como distração e diversionismo?
    Outra selfie do Brasil em pleno 2019 é a que mostra o ministro Sérgio Moro ao lado de seu preferido para o Conselho de Política Criminal e Penitenciária, órgão atuante na prevenção e melhoria do sistema prisional. O escolhido de Moro deu declarações desrespeitosas e desinformativas ao falar sobre mulheres e gays, questionando a suposta predileção delas por homens de farda e usando a expressão "desvio de conduta" para definir os LGBTS. Wilson Salles Damázio foi escolhido pelo mesmo Moro que disse não tolerar nenhum desrespeito ou retrocesso nos direitos dessa população, quando aceitou ser ministro da Justiça de Bolsonaro. O mesmo Moro que garantiria o respeito aos direitos e inibiria possíveis excessos do então recém-eleito presidente pesselista. As afirmações foram feitas no momento em que se questionava como seria um mandato de Bolsonaro em relação à mulheres, gays, negros e  minorias já atacadas por ele ao longo de sua carreira política.  Mas o ministro escolhe alguém que parece ser o exato oposto de respeito a esse segmento ao falar deles.
    

Com Ilona o ministro teria uma pose melhor

    Semanas antes, uma outra imagem do álbum do Brasil 2019 causou desconforto: Ilona Zsabó, fundadora do Instituto Igarapé, foi nomeada por Moro para logo em seguida ser preterida em razão das reclamações por ser pró-aborto, desarmamentista e considerada de esquerda. Pesaram menos seu conhecimento e experiência à frente de um instituto reconhecido por sua credibilidade em estudos de redução da violência do que a pressão feita sobre o ministro. Neste caso, ele usa a tão falada carta branca que recebeu de Bolsonaro para ceder à gritaria por ter escolhido um nome competente e com potencial para oferecer equilíbrio ao Conselho, descartando Zsabó para acolher alguém que faz declarações opostas ao respeito que gays e mulheres precisam na prevenção da violência.
    Os anos que o Brasil viveu de 1964 a 2001 e até chegarmos a 2019 não proporcionaram políticas preventivas aos problemas que enfrentamos, hoje, com a Previdência e outras áreas que precisam de reforma como a Política e Tributária. O país demanda que o deputado, o ministro e o presidente livrem-se de comprometimentos com o passado e tenham a mente no presente, saibam ler as demandas da humanidade no tempo em que vivemos. Assim o cidadão pode aparecer na selfie com um sorriso sem as dúvidas e inseguranças que tensionam hoje o rosto do Brasil.

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