Nos últimos dois meses, parece firmar-se ainda mais na política a vocação do escândalo fácil, onde chamar e desviar a atenção para o que passa longe do principal virou regra, a forma básica de lidar com a realidade, se ela causa embaraço ou cobranças jurídicas, morais. Se está muito difícil dar respostas e cumprir com a palavra, logo surge um novo fato mais chamativo, de maior impacto e com maior vocação para se tornar polêmico e sobrecarregar a memória, deixando para trás, sem respostas ou solução, o escândalo anterior. No texto abaixo, trato da repercussão de discursos e atos de ministros, mas que já passaram da fase de serem tão noticiados, pois já surgiram lances mais escandalosos, como o post repulsivo do presidente, no Carnaval.
O que pretendia o desgoverno do Ministro da Educação com a atitude deplorável de exigir videos de crianças cantando o hino e falando o slogan de campanha de Bolsonaro, caso essa trapalhada pudesse dar certo em algum momento? Em razão das más escolhas ministeriais do presidente temos que transformar o óbvio em alerta no Brasil: escola não é lugar de decorar slogan.
Escolas não são feitas para esse tipo de provocação. Uma mãe e um pai não preparam seus filhos de manhã para que eles sejam ensinados a falar slogan de campanha política. Se alguns pais pensam assim, é na escola que os filhos podem se preparar para ter escolha própria. Parece coisa de ditadura querer um líder adorado desde a infância para que, no futuro, essa geração se identifique e esteja familiarizada com um projeto político. Essa é a primeira mensagem da trapalhada do ministro Vélez: querer formar eleitores ou adoradores de um partido, de um político, exatamente no período da vida que é mais fácil doutriná-los e influenciá-los, a infância e adolescência. E essa aberração vem justamente de um governo que diz querer acabar com a ideologia e doutrinação no sistema educacional dos brasileiros. É de uma imprecisão incontornável a ideia desse ministro.
Segunda mensagem: uma tentativa nefasta de Vélez adular o chefe, usando a imagem e o tempo de milhares de crianças para agradar o presidente com elogios. Ainda que mais simplista, seria risível se não fosse escabrosa e criminosa a vontade de transformar a rotina de crianças em idade escolar numa espécie de prestação de contas ideológica para o presidente da República, algo como "estamos com você". Não há ângulo de acerto para a trapalhada de Vélez.
E o Brasil está vendo, embora os ministros pareçam esquecidos de que tudo que falam e fazem é exposto nas redes e na imprensa. Diante de sinais emitidos por Damares Alves e Ricardo Vélez, nos Direitos Humanos e na Educação, o presidente precisa se perguntar sobre o ônus da permanência deles. Após atrapalhar o início de seus trabalhos com a polêmica do rosa e azul, Damares disse que pais de meninas devem sair do Brasil porque aqui é o país mais difícil para criá-las. E dá-lhe mais perda de tempo para explicar o contexto, que não é bem assim, que não foi isso o que quis dizer Damares Alves.
Se os dois realmente possuem preparo para melhorar suas áreas, ainda não demonstraram, e as supostas melhorias e o planejamento para as políticas que pretender adotar ficaram de fora já na largada, prejudicadas pelas declarações. Até quando Bolsonaro vai manter o risco de ficar refém dessas situações?
É uma falta de preparo que deve ter ação preventiva já na raíz. Não podemos esperar coisas boas de quem fala e faz o que os dois já falaram e fizeram. A maneira de se expressar da dupla é tão ou mais lesiva do que seus atos. E aqui temos outra obviedade transformada em alerta: a campanha acabou, agora é hora de mostrar que os escolhidos pelo povo sabem governar e administrar, e não apenas fazer campanha, a hora do slogan passou, é hora de trabalhar para apresentar os resultados que o país precisa. Dois meses de governo e sabemos que o diversionismo mal-acabado de Damares e Velez não é bem-vindo.
"Não fiz de propósito"
Qual diversionismo? Dar declarações absurdas exatamente para causar polêmica, falas que precisam ser noticiadas pela imprensa e geram milhares de posts nas redes sociais. O objetivo? Distrair a atenção do público e da mídia do que interessa mais num determinado momento. Assim, não se trata do que é prioridade, se a prioridade não consegue ser encarada pelo presidente e seus ministros.
O presidente não pode seguir ignorando o despreparo de seus escolhidos. São postos importantes demais para as trapalhadas dos dois. Declarações de ministros de Estado são levadas à sério e demonstram o que eles pensam, quem realmente são. Estamos passando vergonha aqui e no exterior com as falas e atitudes dos dois.
Damares, às vezes, parece razoável em algumas entrevistas para, logo em seguida, engatilhar que pais de meninas devem deixar o Brasil. Isso é conselho de ministra? Isso se chama diversionismo puro. É colocar a política a serviço do show, do entretenimento. O que mais estava acontecendo naquela semana em que ela disse isso? Do que ela queria distrair os brasileiros que acompanham o noticiário político e se interessam pelo que os membros do governo fazem e falam? Veja as notícias daquela semana sobre o caso Coaf, envolvendo o filho do presidente, os pagamentos para candidatas do PSL, reforçando o escândalo dos laranjas, as cobranças sobre o envolvimento do ministro Marcelo Álvaro Antônio (Turismo) no caso.
É válido e urgente notar que a ordem do ministro Vélez, sobre o hino e a filmagem de alunos, consegue lhe criar os problemas que ele não tem, além de prejudicar sua concentração nos problemas que a Educação brasileira tem de sobra: baixo salário dos professores, alunos fora da escola, condições precárias dos edifícios onde elas funcionam, carga horária. Esses problemas ele já sabe como irá enfrentar?
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