A eleição do medo


    Ao pensar o tema desse post sobre a disputa atual entre Bolsonaro e Haddad sinto tédio alternado com preocupação.
    Escrever é também organizar as ideias, espantar preconceitos, além de atividade terapêutica. Parece que neste tema os benefícios que surgem com a escrita não chegam, e o fato do assunto ser incontornável faz sobrarem esforços sofríveis de prever como será o governo de um ou de outro. 
    Na enxurrada de desinformação sobre o que farão se chegarem ao cargo, os discursos do candidato do PT e do PSL se perderam no jogo de acusações e de desmentidos.
    O peso negativo tanto de um lado quanto do outro é o  pavor que despertam em quem não os aceita, fazendo desta eleição uma prova de medo e não de ideias e debates de projetos. Bolsonaro parece querer apagar a história quando minimiza o que foi a ditadura e faz declarações homofóbicas e racistas para depois negá-las. Haddad parece querer repetir a história recente quando se aproxima demais da figura de Lula, o que seria imperdoável para os eleitores do lado contrário. São fatos e ideias incomparáveis, não tivessem os dois chegado ao segundo turno. O que mais se teme do lado de quem se opõe a  Bolsonaro é o medo de que o país se torne um lugar pior e mais violento para minorias viverem e menos humano do ponto de vista de políticas sociais. O que mais se teme do lado de quem se opõe a Haddad é que o país se torne inviável com mais uma administração corrupta do PT, menos afeita ao mercado e ao investimento. 
    Se formos dar mais uma volta pela retórica e pela linguagem, podemos ainda dizer que o medo causado pelos generais da chapa do PSL é o de resgatar algo que aconteceu na nossa história, pois há video do candidato dizendo que é a favor da tortura. Seu voto a favor do impeachment foi em nome de Carlos Alberto Brilhante Ustra, um torturador.
    Ainda nessa volta podemos dizer que Haddad é quem quer esquecer a história recente de seu partido de dirigentes presos por corrupção, presidenta afastada, etc. 
    O desempate, se pensarmos apenas neste ponto da volta, é fácil, pois não há evidências de que o candidato do PT faria concessões à corrupção, posto que a Lava-Jato e as prisões incentivaram o clamor popular pelo fim deste mal. Em seu discurso não há apologia a esse tema.
    Evidências há na invasão da vida privada, dos afetos e da violência sofrida por eleitores que se declararam contrários ao candidato Bolsonaro, e por aqueles que se encontram nos grupos atacados por ele verbalmente.
    Alguns eleitores do PSL acham que podem oprimir ou diminuir a cidadania e a existência de gays, negros, mulheres e outras pessoas que foram em algum momento desmerecidas pelo candidato. Se ele pensou que essas pessoas poderiam sofrer violência física, além da psicológica, é uma pergunta que deve ser feita a todo momento. Se ele não previu essa consequência de suas falas, deveria ter se retratado de forma direta, objetiva, falando especificamente para essa população, afirmando que não concorda com nenhum tipo de discriminação.

A novidade preocupante

    A novidade nesta eleição é a invasão na vida privada, íntima dos cidadãos que se revelam eleitores de Haddad ou simplesmente contra o PSL. Uma novidade nefasta por trazer à tona a perversidade dos que acham que podem tutelar com violência e opressão a vida íntima de quem não reconhece como igual. 
    O prejuízo a essa altura é irreparável. A liberdade de se expressar a favor de um candidato e contra o outro foi prejudicada por esses grupos, que entenderam as falas de Bolsonaro como quiseram e partiram para a agressão, causando medo (novamente a palavra), naqueles que pensam diferente, que vivem de forma que os opressores não reconhecem como iguais.
    Querendo ou não, tendo ou não consciência, essa é uma parte da história que o candidato do PSL ajudou a construir. 
    Não menos importante do que saber que a história deve ser preservada é saber qual história o seu voto vai ajudar a construir a partir do próximo dia 28, uma missão dificílima dada a volatilidade dos discursos desses candidatos e da ética política no Brasil.




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