Dados, Facebook e Eleições


Cambridge Analytica é a primeira criatura libertada da caixa da Pandora Algorítmica alimentada pelo Facebook

O  lado positivo do escândalo do uso de dados dos usuários do Facebook, nas eleições dos EUA, é a exposição do potencial de alcance das informações, as consequências de seu mau uso e debate sobre o quanto impactaram os eleitores norte-americanos na escolha entre Hillary Clinton e Donald Trump. 
A empresa Cambridge Analytica prestava serviços ao Facebook e tinha acesso irrestrito aos dados que vão desde o nome e sobrenome e lista de amigos à localização e perfis visitados pelos usuários, além de suas curtidas e até mensagens, pois semanas após a revelação da falha ainda vamos conhecendo detalhes sobre  outras empresas que acessaram e usaram dados. 

Como explicar esse escândalo para quem não é íntimo da vida digital.

     É como se o acesso da Cambridge ao território do Facebook fosse a invasão de alguém na sua casa, alguém que  mexesse no seu álbum de casamento e levasse as fotos, pegasse sua agenda e copiasse os nomes e os números. Mas, como falamos de um algoritmo misterioso não sabemos para quantas pessoas essas fotos e nomes foram repassadas em super velocidade. No início, eram 50 milhões, mas o número de usuários afetados e os tipos de dados acessados aumenta a cada semana.
  É comum ouvir de muitas pessoas que usam a rede de Zuckerberg o quanto elas não se importam com a vigilância por não terem nada a  esconder, ou que não sabem qual  o problema de um estranho espionar o seu check-in, suas curtidas, sua lista de amigos. Mas e suas mensagens eletrônicas? 
  O difícil é convencê-los do poder e do valor de milhares de informações como essas quando estão agrupadas para dar origem a uma base de dados que viram gráficos, estatísticas para inspirar a produção de propagandas, mensagens de convencimento, sugestões de leituras e curtidas de posts que trazem histórias, notícias e opiniões moldadas caprichosamente para impactar a escolha de um candidato à Presidência da República. Na linha do tempo essa engrenagem parece espontânea, mas é uma sofisticada estrutura usada, por exemplo, durante uma guerra pelo poder que é a eleição pelo cargo mais cobiçado do mundo, uma artilharia  abastecida com base em perfis psicológicos traçados com as informações entregues pelos usuários numa bandeja para o Facebook.
  Estudos mostram o uso até do histórico do navegador por algumas redes sociais e  aplicativos de celular, claro que sem alarde por parte das empresas. A leitura dos termos de adesão das redes podem levar até cinco horas, o que exige muito tempo e esforço para entendermos o que estamos entregando ao Face, Twitter, Instagram ou Snapchat ao mergulharmos em seus códigos.
    No oceano de dados, algoritmos e interesses que fazem a Web, um ator que tenta ganhar espaço é o movimento antivigilantismo, cujo objetivo é evitar a exposição e o armazenamento de dados desnecessários, quando alguém contrata uma viagem pelo Uber, ou usa o Google Maps, por exemplo, para saber como chegar até a padaria mais próxima. Se você pesquisar sobre partidos políticos de um ou outro espectro, isso também pode ser levado em conta para desenhar o seu perfil e sondar que tipo de eleitor você é.  

E que tipo de políticos eles são?

  É fácil saber que não haverá um recall do candidato e nem das últimas eleições dos EUA, mas a história da fraude da  Cambridge Analytica faz questionar mais uma vez a legitimidade da presença de Donald Trump na Casa Branca e quais artifícios são usados pelos responsáveis por uma campanha para vencerem a eleição. Certo é que essa não era uma situação prevista pela lei, pelos códigos de ética e de conduta escritos antes das redes sociais e dos algoritmos dominarem a maneira como as pessoas se informam. 
  São muitas as questões éticas nascidas da conexão eleição-rede social. Será que vamos ter uma eleição diferente neste ano, por exemplo, no Brasil, ou vamos ter uma eleição que sirva de cobaia para o funcionamento da democracia na era das redes sociais? Ainda não há regras muito claras e bem testadas sobre os limites do uso das redes e suas ferramentas de divulgação e propagação de conteúdo elaborado para promover os políticos. Elas são novas  e devem ser testadas apertadamente no mesmo tempo em que ocorre uma campanha presidencial.
    Sabemos de uma influência que foi considerada como inovadora e positiva pela mídia mundial: a eleição de Obama, que fez uma campanha independente e vitoriosa quase que inaugurando o uso das redes. Mas, poucos anos depois, estamos vendo um Trump com ampla experiência na midia tradicional a usar o Twitter para mentir e incitar o ódio à imprensa, um presidente que  parece preferir um mundo sem jornalistas do que uma imprensa que possa ser corrigida e aperfeiçoada.
  Por aqui, já assistimos aos nossos políticos usando as leis como instrumento de autopreservação, para falar apenas de um dos muitos aspectos corporativistas. Quantos anos tem a rede social e quantos anos tem o nosso Congresso Nacional? Quantos anos tem a esperteza dos políticos e quanto dela será usada para driblar as novas regras? Quantos anos nós ainda aguentaremos? 
    A comprovação da influência das redes, os números de votos que pularam de Hillary para Trump, os que desistiram de votar em um para votar em outro ainda não foram aferidos, e dificilmente serão. Mas o fato é que o assunto tomou conta do noticiário, ultrapassou durante meses temas globais que permitiram a Trump apenas negar e brincar sobre a legitimidade dos votos que recebeu, quando poderia estar administrando melhor e prestando mais contas de seus atos ao Congresso,
  Por aqui, o próximo presidente do Brasil poderá ser um candidato que esteja usando as redes, neste momento, para confundir, polemizar, incitar e manipular com o capital eleitoral que possui e cobiça. Mas ele deve saber que esses mesmos eleitores continuarão presentes e ativos no Twitter, no Facebook e no Instagram após as eleições. Rafael Fais

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