Cadê você Marielle? Reflexões sobre a narrativa de um assassinato sem solução


    Esperar pela resolução do caso da vereadora Marielle Franco me dá a impressão de que estamos sendo infantilizados por quem nos conta essa história. Apresentam uma peça do quebra-cabeça. Depois de alguns dias ou semanas, outras vão aparecendo como se a história contada fosse para crianças, como se não aguentássemos ouvir tudo de uma só vez.
    No início, sabemos que ela foi morta em uma emboscada. Já é difícil de aceitar que uma vereadora, no auge de sua vida, de sua carreira, seja eliminada na cidade onde foi eleita, justamente porque seu trabalho incomodava.
    Alguns dias depois, as autoridades falam em policiais e milicianos como suspeitos. Policiais ou milicianos? Outra parte da narrativa difícil de engolir, se verdadeira, pois a polícia existe para proteger, para evitar o crime, e os milicianos não deveriam existir.
    Após essas informações, o que mais ouvimos? A narrativa continuou para conhecermos melhor Marielle Franco, e sua vida pessoal e profissional foi apresentada para todo o Brasil pela imprensa.     Essa foi outra parte da narrativa: à medida que entramos em contato com a personalidade daquela que foi assassinada, seus projetos, suas lutas, a indignação e a revolta foram aumentando. A população organizou protestos para que a voz da parlamentar não silenciasse; o país ainda precisava conhecer mais de suas ideias, sonhos e conquistas. Tomamos consciência da perda.
    A narrativa avança e um mês depois da morte, segundo o ministro Raul Jungmann, a principal hipótese da Polícia era da atuação de milicianos como autores do crime.
    Depois, ficamos sem informações por vários dias, nada de fatos concretos, apenas acenos de que as investigações avançavam e que não poderíamos saber mais para não prejudicar o trabalho da polícia.
    Diante desse válido argumento, é como se a narrativa ficasse suspensa e só restasse a espera impotente pela justiça, pela prisão dos culpados.
    Mais um avanço na narrativa — A entrada do vereador na história
    Reportagem do jornal O Globo revela que um delator denunciou o vereador Marcello Siciliano por envolvimento no planejamento do assassinato junto a um ex-policial militar. Agora, somos bombardeados com o que parece ser o pior: um colega de Marielle estar envolvido na morte dela, uma pessoa eleita para representar o povo estaria envolvida no assassinato de uma colega. O vereador nega as acusações. A polícia diz não ter mais dúvidas sobre o envolvimento de milicianos, policiais e políticos no caso.
    Não temos como saber se as descobertas da investigação são reveladas na ordem em que acontecem. Mas deixar a parte pior para o final parece ser uma regra. Reportagem do jornal El País ouviu pessoas ligadas a Marielle que não descartam o envolvimento do vereador, mas falaram em cautela por acreditarem ser possível uma cortina de fumaça para esconder algo ainda maior.
    Esse texto sobre narrativa é uma tentativa de entender porque somos expostos vagarosamente à trama que causou a morte dessa política em ascensão, que terá que ser sempre lembrada. Por que leva tanto tempo para sabermos as causas, os responsáveis? Por que essa história nos é contada dessa forma quase torturante? Se pensarmos nos familiares, o drama só aumenta.
    Não se pode julgar, nem definir logo de cara quem matou, mas as linhas de investigação poderiam estar mais esclarecidas há mais de dois meses do desaparecimento de uma vereadora, repito, de uma vereadora e de seu motorista.             
    Observe que das suspeitas iniciais de milicianos e policiais narradas pelo ministro vamos para o possível envolvimento de um vereador da mesma casa legislativa da vítima. Caso não se comprove o envolvimento de Siciliano, teríamos passado muito tempo expostos ao fato de que um erro interferiu na narrativa das investigações do caso, criando sim cortina de fumaça, e manchando a reputação de inocente, nos fazendo crer num adendo ainda mais nefasto na história.
    Se for comprovada a participação, teremos que conviver com esse fato hediondo e trabalhar para entender as motivações e maneiras de evitar outro crime como esse. As duas hipóteses dificultam nossa exposição a essa história cruel.
  A vida dessa mulher foi interrompida e continuamos presos nesta narrativa que até agora falha em mostrar ao mundo quem foi que tirou Marielle do cenário político. Ela conseguiu sair de um cenário opressor, ascendeu para a carreira acadêmica e política. Ela que foi tão eficiente em melhorar, que não mediu esforços para enriquecer sua própria história recebe do estado um indesculpável atraso quando este narra de forma tão vagarosa as circunstâncias que até agora escondem quem de fato quis interromper a escrita da vida da guerreira da Maré. Rafael Fais

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