Por Que Marielle Franco Incomodava?


     Porque seus projetos tentavam tirar das sombras os brasileiros que merecem estar em evidência: cidadãos comuns que devem ter seus direitos respeitados e não estarem sob os holofotes das notícias apenas quando são presos injustamente ou assassinados. Falar dessas pessoas e de tudo que falta a elas evidencia a incompetência de quem passou as últimas décadas saqueando as contas do Rio de Janeiro, operando a  politicagem fajuta que não se sustenta nas manhãs de segunda-feira, quando o cidadão precisa de transporte limpo e seguro, ruas iluminadas e seguras, escolas limpas com professores bem pagos e preparados. Hospitais, serviços funerários, atendimento padronizado para que não tenhamos que pagar fortunas para comprar o básico de empresas mal fiscalizadas pelas Agências Reguladoras.
     O discurso de Marielle, transformado em políticas e em projetos de lei como o da regulação do uso de mototáxis na Maré e sobre contratos de prestação de serviços entre a prefeitura e organizações sociais de saúde (para evitar as frequentes suspeitas de corrupção) foram feitos porque a vereadora  sabia que eles melhorariam a vida diária dos moradores do lugar onde ela cresceu. Ela pensou essas leis  para tirar as atividades do dia a dia dos cidadãos, como o direito de se transportar e o  de ter acesso a serviços básicos de saúde de uma zona nebulosa de mera exploração. A regulação traz a clareza de regras que todos sabem como funcionam, permite que se conheça quem são os responsáveis pelos serviços e quais as obrigações de todos os envolvidos nas contratações. Claro que dinheiro público, disputa por cargos, comissões e poder foram e seriam ainda mais expostos pelos projetos e pela maneira de Marielle entender a política e a organização social da qual fazia parte.
     Marielle Franco, negra, pobre,  em plena ascensão por ser honesta num Brasil em que grande parte da elite política insiste em fingir  fazer "nova política" para deixar as coisas exatamente como estão _falo de foros privilegiados, auxílios e benefícios infinitos , essa mulher destemida era uma voz  incômoda porque sabia legitimar a atenção que chamava para o que muitos grupos no pais chamam de cativeiro social: morte pela cor da pele, violência e abuso policial, denunciados por ela recentemente.
     Quando o básico do básico passa a ser cuidado e provido pela fonte certa, o cidadão de todo o país, como o cidadão da Maré, começa a ter mais tempo para cuidar de outros interesses como estudos, novas ambições que não apenas dar conta de passar por mais um dia de existência demasiadamente difícil e trabalhosa.              Assim começa a aparecer e ter rosto, ideias, desejos, e existir como o cidadão que merece ser titular no Brasil. A morte da cria da Maré traz perguntas sobre quem manda nesse Brasil : Que parcela do poder quer que esse cidadão de fato exista e não apenas sobreviva a mais um dia procurando emprego, mofando nas filas de hospitais? Que parcela do poder vai lutar para que o crime seja esclarecido e não aconteça novamente?
     Marielle, seus projetos e sua política simbolizavam a construção da ponte entre esses dois tipos de cidadãos: um que agoniza porque é roubado e morto por quem deveria protegê-lo e outro que deveria ter oportunidade justa para estar em plena ascensão como estava Marielle Franco.
Rafael Fais


Comentários