Transversal, obra sobre Ali aproxima esporte, jornalismo e vocação de ícones

   Norman Mailer é tão lutador e acaba tão nocauteado quanto George Foreman e Muhammad Ali naquela que ficou conhecida como a luta do século, travada no Zaire, em 1974. A luta de Mailer é contra as "equipes" que se aglomeram em volta dos personagens que ele quer entender e desvendar no livro. São os assessores que tumultuam o hotel onde Ali e Foreman se hospedam, nos restaurantes onde jantam, na frente da porta de seus quartos.

    Quem lucra é o leitor ao experimentar como o jornalista (um dos precursores e expoentes do jornalismo literário) se desdobrou como repórter e como narrador para contar essa história. É Claudio Weber Abramo, no posfácio do livro, quem melhor identifica a artimanha do gigante Mailer em se transformar também num personagem do livro ao ampliar a narrativa em primeira pessoa.
Como?
    Para fazer essa ampliação Norman Mailer trata a si mesmo como alguém que os outros pensam que ele é. Mas é melhor ficarmos com Abramo e seu poder muito maior de tornar esse processo inteligível: "Num texto desse tipo, a persona do repórter fica incorporada no narrador. Porém, Norman Mailer é também personagem, referido na terceira pessoa_de modo que o narrador, que sabemos ser preposto de Mailer, fala de alguém que se chama Normam Mailer, de seus pensamentos e atitudes, às vezes com o estranhamento peculiar à descoberta de algo insuspeito em alguém que se conhece há bastante tempo. Desse modo, as especulações do personagem Mailer sobre as motivações de outros  e as observações sobre si próprio são dadas a conhecer ao leitor pelo discurso de um narrador que se confunde, e que não se confunde, com esse mesmo personagem." 
   
    A leitura desse livro e do posfácio me instigou a fazer a uma pergunta: Em quantos temos que nos desdobrar para dar conta da tarefa de escrever jornalismo nessa época onde a atividade parece estar em contínua travessia (de um ponto conhecido para onde?). O mesmo autor de uma reportagem metódica e relevante, que atenda aos chamados sociais do jornalismo, é o mesmo que precisa brincar ao "tratar" seu texto e sua chamada nos sites e nas redes sociais.  Criatividade é o que pedem os editores para o trabalho do jornalista ganhar cliques e  relevância para o m.e.r.c.a.d.o . Maldição ou oportunidade, o fato é que o jornalismo, assim como todo o resto do conteúdo que estava apenas no mundo físico, agora está também nos dados e nas nuvens organizadas  pelos algoritmos que decidem o que chega e o que não chega nas timelines do Face, por exemplo, como fica bem explicado nessa reportagem do NYT, assinada por Ravi Somaiya.
   Trago esses livros de autores respeitados  porque eles já se desdobravam para transformar a informação em algo não só relevante, mas interessante também. Mailer ajudou a criar e a trazer à tona o jornalismo literário. Era notícia e era informação a matéria-prima de seus livros. Será que vamos dar conta de manter o jornalismo com os pés no chão enquanto os dados e as informações estão nas nuvens? Penso que autores como Mailer podem nos ajudar. (Rafael Fais)

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