Deixe-me em Paz

    Essa semana terminei de ler Deixe-me em Paz, do chinês Murong Xuecun. O livro é extremamente descritivo, talvez excessivamente descritivo: ruas de Chengdu, uma das mais populosas cidades chinesas, suas prostitutas, os frequentadores de seus mercados e a comida vendida nas ruas e nos restaurantes são delineados a todo momento.
   Os homens do livro, retratados como pessoas infantis, parecem ter como destino a eterna busca pelo melhor sexo, pela melhor bebida e pelo melhor cigarro. Ganham e gastam dinheiro como se o presente fosse a única opção. Os relacionamentos afetivos estão muito longe de serem saudáveis ou de pelo menos não causarem danos aos envolvidos. Suas vidas se restringem ao trabalho, usado apenas para obter dinheiro e status. Não há sentido aparente no dia a dia dessas pessoas. Se elas buscam algo além da sobrevivência e da ascensão social, não me deixaram perceber.    
    O que Murong narra não é nada novo porque em toda metrópole do mundo existem pessoas como os personagens criados por ele: gente que faz escolhas antiéticas no trabalho, funcionários de empresas que trocam favores com funcionários públicos para se darem bem. Essas escolhas também estão em suas vidas pessoais e confirmam a vontade irresistível de errar da parcela da humanidade retratada no livro. 
    Deixe-me em Paz foi publicado na Internet e só depois em livro em razão da censura do Governo Chinês. A narrativa é bastante simples e não revela nenhum segredo que o primeiro-ministro do país, Li Keqiang, possa esconder. Seu povo erra e acerta como o povo de qualquer país. Por baixo dos ternos e gravatas dos políticos e executivos, dos uniformes de garçonetes e policiais há seres humanos patinando entre o desejo e a retidão, entre a crença nos valores de um país e a melhor maneira de alcançar seus interesses pessoais. Rafael Fais

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