Imagine sua vida como os primeiros vinte minutos de uma comédia romântica. Você é o jovem rapaz ou a moça que se encontram ao acaso, numa situação que os obriga a conviverem. O gênero é explorado à exaustão pelo cinema há tempos. São histórias repetitivas e de muito sucesso que ainda vendem milhões de ingressos. Na vida real, também repetimos padrões de comportamentos, muitas vezes sem saber. Mas quem em sã consciência deseja viver ou assistir sempre a mesma história? Quem quer reprisar as mesmas emoções, sem avançar e se desenvolver no roteiro da vida?
Na cena política do país, personagens muito parecidos repetem tramas que também são muito semelhantes; e estamos permitindo essas reprises faz tempo. Lembre-se da posse de dinheiro não declarado em contas secretas, de estilos de vida que não combinam com os salários, mesmo que sejam de parlamentares privilegiados com tanta verba pública! E ainda somos plateia da ostentação de quem expõe o temperamento ou o excesso do consumo como a confirmar o que todos já desconfiavam.
Nas últimas semanas, entrou para a narrativa política do país o Porsche do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e as aulas de tênis dele e da mulher, que custaram o preço de um apartamento. No mês passado, os carrões do senador Fernando Collor de Mello foram apreendidos e invadiram nossas telas.
Há alguns anos, um Land Rover também foi o objeto do desejo e motivo de desgraça do ex-secretário geral do PT, Silvio Pereira. Silvinho disse que o carro era um sonho de criança. Sonho realizado pelo dono da GDK, empresa ligada à Petrobrás.
Esses sonhos e ambições de posse e de status ficam ainda menores quando comparados à importância do que significa ocupar um cargo político, do que é exercer um trabalho para desenvolver projetos que impactam a vida do país.
Temperamentos versus Realidade
Ao lado do deputado Eduardo Cunha, o ex-deputado Severino Cavalcanti entra na lista desses personagens repetitivos. Ele já interpretou o mesmo papel que Cunha vive agora: presidente da Câmara dos Deputados. O filme de Severino terminou quando ele foi descoberto ao receber mesadinha do dono de um restaurante da Câmara. Diante do cheque que serviu como prova, Severino gritou furioso com seus colegas: "Eu não aceito". Não queria deixar o set de filmagem, mas teve que sair. Já Cunha disse calmamente que não vai renunciar. O tom de voz que usam ao dizer suas falas são bem diferentes, talvez porque a plateia de agora, tanto a política quanto a popular, já não cobram uma interpretação muito convincente.
Os políticos, nesse caso, vivem como fantoches e nunca conseguem ser alguém de verdade. São atores que estão muito longe do talento e do caráter necessários ao papel que desempenham. Seria consequência da sociedade de consumo, da fissura em comprar, em apenas ter, uma explicação para o flagelo de nossa política? Poucos ofícios são mais nobres do que ser político, exercer uma atividade para melhorar a vida do povo. No entanto, a insatisfação ou o ato de ignorar a nobreza desse papel é substituída pelo prazer mundano de ter, pelo ato de comprar carros de luxo, aulas de tenis que valem o preço de um apartamento. A ambição desses personagens menores atropela o senso de responsabilidade e é maior que a realização em contribuir com a vida dos brasileiros.
A sensação ao acompanhar o noticiário atual, e que remete a notícias de outras épocas, é de que o Brasil está viciado numa perseverança mesquinha e cruel de repetir um roteiro de corrupção, de acusações e malabarismos que ocupam o tempo de governar, deixando o público (povo) numa eterna plateia impedida de ter, na vida real, os serviços básicos de qualidade a que tem direito.
Rafael Fais
Rafael Fais

