Povo, Imprensa, Generalizações


     Não se pode confundir o que quer o povo brasileiro com o que quer a imprensa brasileira, seja a mais alinhada ou a mais crítica ao Governo. Desde o início da Operação Lava Jato, a leitura do noticiário me faz pensar na dificuldade de o leitor formar uma opinião equilibrada, um panorama para que possa entender a situação política do Brasil por meio do consumo das notícias. 

     Note que a recente possibilidade de o ex-presidente Lula ser ouvido pela Polícia Federal despertou análises questionadoras da confiabilidade de uma possível sentença judicial, além de duvidar da validade da Operação Lava Jato, caso ela termine sem chegar a identidade do chefe do esquema de desvio de recursos da Petrobras.

     Há jornalistas que apontam para um Brasil inviável, se não for comprovado quem é o chefe do esquema. Seríamos imbecis, na visão de um deles, se isso não acontecer. 

     A verborragia e a voracidade de alguns desses profissionais da imprensa, de novo penso tanto nos mais alinhados ou contrários ao atual Governo, me causa, às vezes, a falsa impressão de que a permanência de Dilma Roussef seria uma questão de imprensa, algo a ser decidido nos veículos jornalísticos. A impressão, é claro, logo se dissolve. Será que se dissolve nos outros leitores, naqueles que não conhecem as técnicas jornalísticas, seus requisitos e regras?

     A depender da maioria dos jornais, revistas, etc, o leitor-povo-eleitor pode achar desculpável tudo o que a Lava Jato trouxe à tona. A outra opção é pensar que a presidente Dilma deve sair por meio do impeachment. Extremos fortalecidos ou nascidos com as vozes editoriais que não propõem outras interpretações dos fatos, que não essas duas, com a mesma dedicação.

     Um movimento de partidos políticos para incentivar a saída de Dilma está na Web. O site feito para adesão popular lista as pedaladas fiscais, dentre outros requisitos (previstos na lei) como motivos para o afastamento. Outro movimento veio de políticos que apoiam a permanência da petista e defendem seu mandato até 2018. Os dois são legítimos e demonstram claramente o que querem dois grupos de pessoas, cujas identidades e objetivos são possíveis de verificar.

     Já conhecer e aferir o que o povo quer não é tarefa do jornalismo. Só as urnas podem dizer o que o povo quer, qual político ele deseja na Presidência. Se a escolha foi a melhor, a mais acertada, é um desafio mais adequado aos historiadores do que aos jornalistas. Leva-se mais tempo do que o tempo da notícia para aferir e constatar reais mudanças na vida de um país e as consequências do acerto ou erro de suas escolhas.

     O bom jornalismo, obediente a suas regras, pode ajudar o entendimento do leitor quando também explica e contextualiza as notícias (gênero baseado nos fatos) de forma equilibrada e com a mesma dedicação de espaço, análise e interpretação. Ele é mais eficaz ao dar preferência aos fatos, números, pesquisas e entrevistas, deixando abstrações e generalizações de lado.

     Em tempos de avalanche de informações, contar e explicar, interpretar e analisar, são atividades com valor e custo altíssimos. Se levarem a sério essas necessidades, empresas e profissionais da notícia contribuem para que o jornalismo continue relevante e seja uma escolha (boa) do leitor que quer apenas se informar, sem sentir que suas opiniões e seu modo de pensar estão sendo cooptados pelo conteúdo que consomem. Rafael Fais