Nas páginas de "O Africano", o francês Jean-Marie Le Clézio reconstrói sua história real com o pai e reflete sobre a falta que esse homem lhe fez durante toda a vida. O autor narra de forma sutil a investigação sobre o momento de sua concepção, o encontro e o afastamento entre seus pais e sua infância na África. Ao buscar pelo pai, ele escreve também sobre si mesmo e afirma seu próprio lugar no mundo.
Se o pai real de Le Clézio escolheu a distância emocional e geográfica dos filhos, o pai criado pela ficção do norte-americano Jonathan Safran Foer em seu "Extremamente Alto & Incrivelmente Perto", é arrancado da vida do filho no ataque às Torres Gêmeas, em 2001. Foer usa a literatura para falar de um legado deixado pelo pai, vítima do terrorismo, ao seu jovem filho, e reafirma no livro traços fundamentais da cultura norte-americana como uma herança que deve ser perpetuada pela geração do filho, Oskar. Uma missão ingrata porque esses valores são a todo tempo questionados (e atacados) por outras culturas ao redor do mundo, diante do dispendioso e violento convívio com o terrorismo.
Em "Liberdade", de Jonathan Franzen, é o adolescente Joey quem decide se afastar de seu pai, Walter Berglund, um exemplar controverso dos ricos subúrbios americanos. O adolescente recusa o modelo e os ideais do pai com a mesma determinação usada para alcançar o padrão de vida conquistado pelo progenitor. A contraditória fuga de Joey é um guia para o universo de Walter, ainda refém de sua relação com o pai. Franzen narra a ruptura e o reatamento entre os homens dessa família como uma versão familiar da desconstrução de identidade dos EUA pós terrorismo e do esforço do país em sobreviver aos desafios econômicos e morais.
Leituras para quem não gosta de comercial de margarina. Rafael Fais
"Alguma coisa me foi dada, alguma coisa me foi tomada de novo. O que está definitivamente ausente de minha infância: ter tido um pai, ter crescido junto dele na doçura da intimidade familiar. Sei que isso me fez falta, sem pesar, sem ilusão extraordinária. Quando um homem, dia após dia, olha a luz modificar-se no rosto da mulher que ele ama, quando espia cada brilho furtivo no olhar de seu filho. Tudo isso que um retrato, uma foto, sejam eles quais forem, nunca poderão captar" .
O Africano - Jean-Marie Gustave Le Clézio
"Quanto à pulseira que a Mãe usou no funeral, o que fiz foi converter a última mensagem de voz do Pai em código Morse e depois usar contas azul-celeste para os silêncios, contas marrons para os intervalos entre as letras , contas violetas para intervalos entre palavras e trechos de linha curtos e compridos entre as contas para representar os bipes curtos e compridos . . . "
"Estou dizendo tudo isso a você porque jamais serei seu pai e você sempre será meu filho."
"Inventei um selo postal cujo verso tem gosto de crème brûlée".
"O Pai tinha um espírito, ela disse, como se estivesse rebobinando um pouco a nossa conversa. Eu disse "Ele tinha células, e agora elas estão no telhado dos prédios, no rio e nos pulmões de milhões de pessoas em Nova York, que respiram ele toda vez abrem a boca para falar!" "Você não devia falar desse jeito". "Mas é a verdade! Por que não posso dizer a verdade?" "Você está perdendo o controle."
Extremamente Alto & Incrivelmente Perto Jonathan Safran Foer
"Walter queria vender a casa e dividir o apurado com os irmãos, e Patty insistia com ele para respeitar o desejo materno de recompensá-lo por ter sido um bom filho. O irmão mais novo era militar de carreira e vivia no deserto de Mojave, na base local da Força Aérea, enquanto o mais velho tinha dedicado toda a vida adulta a dar prosseguimento ao programa iniciado pelo pai, de beber sem moderação e explorar a mãe deles financeiramente e, afora isso, relegá-la ao esquecimento".
Liberdade - Jonathan Franzen


