Não queria que se chamasse como o filme Cronicamente Inviável

Rafael Fais    O cronista tenta reunir fatos da semana para seus escritos. Busca na memória um personagem bom e com uma história leve, capaz de adicionar doçura ou humor ao noticiário deprimente. O filme que viu essa semana se chama Samba, mesmo nome de seu protagonista: um imigrante que tenta conseguir emprego e permanência legal na França. Ele conhece a executiva Alice que presta serviços numa ONG, onde Samba vai buscar ajuda. Ele logo descobre que ela não consegue dormir nem mesmo tomando muitos remédios. Ela vai descobrir que ele não sabe mais quem é em razão dos vários nomes que já usou para conseguir empregos e esconder sua ilegalidade no país. Os dois se apaixonam. O filme vale a pena.  
    Mas o cronista desiste de escrever sobre a inegável doçura de Samba e seu calvário, quando sua lista de notícias da semana é invadida pela voz do Papa no telejornal. Um papa que diz a seus padres que eles devem ser menos rabugentos com seus fiéis merece entrar no texto. Ao escrever o parágrafo, o cronista sabe que mordeu a isca e está sendo mais um a alardear a personalidade hilariê do representante maior do Catolicismo. Mas o calvário também é de Francisco e ele recebe do presidente da Bolívia, Evo Morales, uma escultura da foice e do martelo, símbolo do comunismo (contrário à religião). O comentarista do telejornal visto pelo cronista afirma que o Papa frustrou qualquer intenção de Morales de irritar ou causar polêmica papal. E o Vaticano logo declarou que seu chefe não se sentiu constrangido. "Se é pra ser hilariê, vamos contribuir", deve ter pensado o presidente.
    Constrangido mesmo estava o cronista porque alterava seus temas a todo momento. Nem se lembrava mais do plano inicial e já se perguntava se havia um plano B para sua crônica. "Por que não me planejo mais". Ele sofria porque seu desejo era contribuir com os leitores e diverti-los, mas já estava tratando de seus próprios dramas. No primeiro parágrafo, havia deletado com vontade a frase "o cronista tinha dúvidas sobre também estar apaixonado". 
    Foi quando ele pensou que a frase dita pelo deputado Antonio Imbassahy, membro da CPI da Petrobras, também lhe serviria: "Ninguém vai escapar", dita sobre a convocação do Ministro José Eduardo Cardoso pela comissão. A cena que tomou conta do cronista foi a da Esplanada dos Ministérios, lá em Brasília, com a voz de um locutor de trailer de filme de terror, repetindo a fala do deputado. Como escapar do tom deprimente do noticiário ele não sabia, pois a doçura de Samba estava cada vez mais longe e dava lugar ao que antes era indignação, transformada agora em algo mais forte, ao ler sobre dois homens amarrados e espancados no Maranhão e no Rio de Janeiro. Cena essa que despertou a dos caixas eletrônicos explodidos dentro de um hospital de Uberaba, em Minas Gerais, por 4 homens encapuzados. Fechou os olhos e tentou esquecer. Não conseguiu e contou até dez. Como a cena persistia, pegou ao lado do computador o livro "Eduardo Campos: um perfil", dos jornalistas Chico de Gois e Simone Iglesias.
    Abriu o livro na página 19 e leu o segundo parágrafo. "Em 1986, a democracia ainda engatinhava com dificuldade no país". Pensou que agora engatinhamos com um pouco mais de desenvoltura. E se fosse elencar todos os problemas e questões culturais, policialescas, históricas, políticas e econômicas que impedem a maioria do povo de caminhar de cabeça erguida, jamais terminaria seus escritos. Mas nada termina, tudo acontece de novo e de novo. Outras frases, declarações, escândalos e acusações estarão disponíveis na próxima semana. O cronista fechou o livro e pensou estar momentaneamente livre deste texto. Rafael Fais