Desde o início do agravamento da falta de água em São Paulo, tenho prestado atenção em todas as atividades que devem ser somadas as nossas agendas. A imagem no telejornal de um senhor empurrando um tipo de carroça com uma caixa d´água enorme depois de voltar do trabalho é a mais emblemática. Ela se transformou em um carimbo desses tempos. Quando vejo propagandas que solicitam ao indivíduo sua ação para prevenir a dengue, economizar água, não usar sacolas de plástico, contribuir com o Greenpeace, logo imagino que cada um desses casos é também uma carroça que deve ser empurrada por ele. Quando ouço no rádio que um pai foi preso depois de ter um surto num hospital particular porque o filho estava na fila há seis horas, vejo logo essa fila imensa sendo empurrada por um único homem, cujos limites da dignidade foram esgarçados há tempos. Esse pai optou pagar por um plano de saúde porque o Governo não forneceu atendimento médico confiável. A empresa, regulada por um Governo que não a regulou de forma eficiente, esquece o indivíduo na fila e justifica o atraso com o elevado número de pacientes. Pouco médico para muito paciente.
A lista continua: ande menos de carro, leia todos os rótulos dos alimentos, economize energia, peça nota fiscal, leve a sacola ecológica para o mercado. Muito Governo, pouco conforto para o cidadão.
Chegar em casa depois de um longo dia e ainda precisar empurrar a água para ferver a mamadeira do filho, o chá da avó e o caldo que engrossa o feijão ultrapassa qualquer limite. Paciência ou indignação para enfrentar esse dia a dia? É como se a vida estivesse vazando e escorrendo nesse precioso tempo que a maioria gasta sobrevivendo e não vivendo. O tempo de cuidar da família, de estudar e se aperfeiçoar, aquelas horas para gastar com os amigos e relaxar, são roubadas das pessoas que tem que assumir deveres maiores do que seu dia e capacidade. Água, saúde, educação, energia acessível a todos, saneamento são alguns dos deveres de um Estado cada vez mais caro e administrado por Governos que nos trouxeram até a situação precária de hoje. E não apenas no Brasil.
O assassinato de mais um jovem negro nos EUA, dessa vez em Baltimore, mais uma vez pela polícia que devia protegê-lo, escancara a animosidade, a repressão e o preconceito. O presidente Barack Obama, primeiro negro a presidir o país, negro como o jovem que foi assassinado por ser negro, veio a público dizer que a polícia e a população devem fazer um exame de consciência. Parece brincadeira, mas é o pronunciamento do presidente dos Estados Unidos. Os policiais foram filmados arrastando violentamente Freddie Gray. Ele ficou preso e pediu várias vezes por tratamento médico, mas foi ignorado. O vídeo mostra Gray gritando de dor por uma lesão na coluna, durante a abordagem policial.
Ao relembrar essas histórias todas, sinto que quem deveria solucionar e estancar todos esses vazamentos acabou trabalhando pouco, sem planejar, ou pior: priorizou o poder e não a eficiência. Deveres individuais fazem parte da lógica da vida de todos nós. A consciência e o compromisso com eles depende dos valores e meios de cada um, quando não são regulados pela lei. Mas empurrar carroça com água, empurrar a fila de seis horas para fazer o hospital funcionar é ultrapassar o abuso, é dilacerar a sensibilidade do ser humano; tanto do que passa por essa humilhação quanto do que assiste. Essa não é a história de um indivíduo. É a história de toda a sociedade. O exemplo me faz pensar que cada vez mais pessoas serão submetidas a esse tipo de abuso. Mesmo que uma minoria esteja protegida porque paga por planos de saúde, por seguranças em condomínios, pela faculdade particular ou por colégios particulares. Note que o caso da espera de seis horas aconteceu em uma empresa privada.
Também empurro minha carroça quando sinto em meu dia a dia a dificuldade de economizar energia elétrica, e fico com a sensação de que não há o que cortar, o que diminuir, que aparelho desligar. Já fiquei na fila do hospital particular por 3 horas e meia, em 2013, porque para a triagem meu mal estar não era nada demais. Três horas e meia depois ouço do médico que eu poderia estar com dengue. Era um forte resfriado.
É 2015 e temos que economizar água não porque queremos salvar o planeta, mas porque podemos ficar sem ela a qualquer momento. O planeta deixa de ser aquele globo azul numa imagem de filme de ficção científica para ser a pia da cozinha, o chuveiro, a carroça daquele trabalhador.
Há dias em que não tenho energia nem tempo para salvar o planeta. Quero apenas encontrar os amigos e escutar suas histórias, esperando que elas sejam boas. Que estejam todos bem.
Mas o noticiário parece dizer que o mundo está acabando. Pode ser, mas eu quero ficar. Descer do mundo não é opção. Para ficar, e ficar com dignidade, é preciso enfrentar o desafio de solucionar problemas crescentes diante de Governos cuja eficiência parece diminuir. Rafael Fais