Histórias com vodka e histórias sem vodka

Rafael Fais

    Das leituras desses dias fiquei com algumas histórias em mente.
    Uma delas, talvez a melhor, tenha sido sobre os jornais locais de São Francisco, nos EUA, escrita pela jornalista Vauhini Vara, da revista The New Yorker. Ela saiu em busca das estratégias de sobrevivência para sites de notícias locais. Vara cobre negócios e tecnologia e ouviu muitas histórias de reformulações dos editores e repórteres para solucionar a difícil equação entre relevância e sustentabilidade de seus produtos jornalísticos. 
    Todos concordaram que a publicidade sozinha não é capaz de sustentar esses negócios. O editor do tradicional Guardian, de São Francisco, diz que o modelo antigo pode fazer parte de uma mistura necessária para sustentar um negócio como o jornal. A solução ele não tem. Em outubro o jornal fechou por não conseguir se manter financeiramente. 
    Enquanto alguns apagam os pixels como também é o caso do Bold Italic, um blog que cobria cultura na Baía da cidade, novas histórias começam como a do 48hills, que tem um ano de vida, um milhão de dólares de orçamento e um antigo e experiente jornalista do Guardian no comando. Vale ler as outras descobertas da revista The New Yorker sobre  jornalismo online local.
    
    Histórias com vodka e histórias sem vodka

    Outra que marcou minha semana veio de um livro: A Face Oculta do Novo Czar, da jornalista Masha Gessen. O trecho que li contava as trapalhadas dos últimos anos do governo de Boris Iéltsin. Gessen narra o constrangimento de um ministro que foi demitido, readmitido e novamente colocado na rua pelo presidente russo. Muitos afirmavam, segundo a jornalista, que a vodka era a culpada pelas confusões de Iéltsin.
    Claro que me lembrei da coletiva do quase ministro Pepe Vargas ao afirmar que seria ministro de Direitos Humanos e que, durante a mesma entrevista, atendeu a um telefonema e voltou a cena para negar o convite de Dilma. No final das contas, ele ficou com o cargo e enfrentou essa deselegância na frente de toda a imprensa sem beber nem água. Cheio ficou o copo de quem diz que a presidenta está perdida.
    Na New Yorker, Vauhini Vara escreve que "velhos hábitos persistem" para falar sobre notícias e o comportamento da imprensa e dos leitores. A maneira de fazer jornalismo está mudando, desde a Internet, com maior ou menor drama conforme os casos. A maneira de fazer política é que parece resistir no Brasil contra o coerente, mas ainda vacilante clamor público por mudança. A internet exerceu uma força impetuosa e pegou de surpresa o jornalismo mundial, sem deixar opção: continuar como antes dela nunca foi possível. Se uma das missões do jornalismo é fiscalizar o Poder Público, o jeito de fazer Política talvez mude pela influência das transformações causadas pela tecnologia no Jornalismo.          
    Jornalistas podem ser tendenciosos como antes, mas não podem mais ignorar fatos ou escondê-los. Edward Snowden e Julian Assange são exemplos claros disso. O jornalista e advogado Gleen Greenwald trata desse tema em algumas páginas de seu livro "Sem Lugar para se Esconder".
    De volta ao Brasil, sabemos que o jeito do cidadão fazer política mudou. Os movimentos que colocaram multidões nas ruas em Junho de 2013, e agora em 2015, são exemplos. A força da rua e a visibilidade dessas manifestações foram empoderadas pela rede.
    Caso a maneira de agir dos políticos mude e possamos sentir um aperfeiçoamento na ação dos eleitos, teremos comprovada a eficácia da rede também nessa sensível área da vida.
    Mas como velhos hábitos persistem, será preciso força além da tecnológica para alcançar esse merecido oxigênio que os políticos daqui tanto precisam, sejam eles de qualquer partido que estiver em seu pensamento agora. 

Rafael Fais