A crise não é da água, a crise é da gestão política e do brasileiro!

   

     Toda vez que ouço as desculpas e o discurso mal ensaiado que coloca nas costas do consumidor, nas minhas costas e nas suas costas, o esforço e o sacrifício agora obrigatórios para reverter a falta da água, sinto que somos um povo predestinado a ser apenas um ouvido, nascidos para escutar e acatar tudo o que os governos querem. Tudo o que é melhor para eles e não para o povo.
     Vejam o ponto em que estamos: à falta de escolas, hospitais, transporte, moradia, somamos agora a falta de água! Entramos na rota das manifestações há pouco mais de um ano e meio, depois da política ser explorada como meio de vida por quem deveria cuidar do que é público. Depois de desviarem todo o nosso dinheiro que evitaria filas em hospitais, mortes por balas perdidas, balas certeiras e policiamento defasado. Só depois de esgotarem as forças da maioria dos brasileiros que seguem oprimidos pelo caos diário para terem o mínimo do mínimo é que levantamos um pouco a cabeça para baixá-la de novo. Pagamos impostos para sustentar de voos particulares para implantes de cabelo de senador à mensaleiros de dois dos maiores partidos do país.
     Enquanto estamos ocupados, super ocupados levando honestamente a vida para termos o mínimo do mínimo, sobra tempo para governarem com discurso e com marketing porque planejamento não há.
     Neste momento o brasileiro também está em crise. Se crise pode significar oportunidade, podemos pensar em como construir uma ferramenta de mudança para que a crise em que nos encontramos, essa em que o governo nos colocou, possa nos tirar daqui. A falta de água vai desviar ainda mais do que já desviou os olhos da mídia e da população dos outros grandes temas da atualidade: os roubos da Petrobrás, o afrouxamento das condenações do Mensalão Petista, a demora do julgamento do Mensalão Tucano e outros casos de desvio de dinheiro público.  
     Os discursos abobalhados sobre a falta da água me lembram da frase do psicanalista Jacques Lacan: "você pode saber o que disse, mas nunca o que o outro escutou". Estamos cansados de só escutar, queremos saber.