Letra A
by Rafael Fais
Mnemônicas
17/12/2012
O que faz a gente se lembrar de um filme? Um lance inusitado numa cena, um personagem carismático, atores em bom desempenho, ou a bela paisagem escolhida pelo diretor para rodar sua trama? Certamente, tudo isso conta, mas a pertinência da história e seu ineditismo funcionam melhor para mim. Comédias românticas repetitivas e sequências de filmes não ganham espaço nas minhas recordações cinematográficas. No meio de filmes bons e ruins de 2012, guardo mais o que vi de diferente.
Das produções a que assisti na 36ª Mostra Internacional de Cinema, realizada em outubro, considerei o alemão “Kill Me”, de Emily Atef, o de argumento mais original. Uma garota que não tem coragem de se matar encontra um assassino fugitivo escondido na casa dela. Ela promete ajudá-lo a fugir se ele concordar em matá-la. O motivo de a adolescente querer acabar com a vida não é contado. E talvez seja em razão desse mistério que ainda me lembro do filme: por que alguém jovem e belo não quer continuar a viver? As atuações e o ritmo da trama não prendem a atenção, porém a curiosa e deprimente “ambição” da menina que ninguém sabe por que quer morrer fica na memória.
Também exibido pela Mostra, “A Culpa do Cordeiro”, uruguaio dirigido por Gabriel Drak, foi o melhor filme que vi esse ano. A história de uma família de classe média tem sua força sobretudo nos diálogos, bastante realistas. Questões existenciais e morais são expostas e confrontadas pelo patriarca num ataque de crueldade, que não sabemos ser redentor ou condenatório. Ele revela os erros e as fraquezas dos filhos, do genro e da esposa, durante um fim de semana na estância da família. Todos são pressionados a encarar as más escolhas que fizeram e a tomar um novo caminho, depois dessa implosão da estrutura familiar. A ideia do longa é simples, mas impactante. Compartilhamos a dor de Elena, Alvaro, Fernando, Lydia, Silvana e Augustin, ao verem suas verdades escancaradas, e a sensação de libertação de cada um deles não são esquecidas facilmente.
Outro país e outro drama, agora individual: o de Brandon, o executivo nova-iorquino viciado em sexo, de “Shame”. Pelas mãos do diretor Steve McQueen, acompanhamos o esgotamento emocional do personagem, depois dele gastar toda a energia satisfazendo sua incontrolável libido com o maior número possível de parceiras – comportamento que se torna inviável quando a irmã suicida vai morar com ele. O tema do vício em sexo é o que se sobressai, mais do que a narrativa em si. Até porque o assunto, é claro, não tem como se esgotar em uma única história. A curiosidade sobre a questão continua depois que o filme termina, além do interesse por Brandon, que tem tanto e nada ao mesmo tempo (e Michael Fassbender consegue transmitir bem as dualidades do personagem). Ao ver “Shame”, não sabemos se torcemos pelo “ajustamento” do protagonista ou para a irmã se recuperar e deixá-lo livre para gastar sua energia sexual da maneira que quiser. E isso é um ponto muito positivo.
Esses, contudo, são os filmes de que gostei muito. Seja pela escolha do tema, pelo argumento ou porque me transportaram para outra realidade nas horas em que fiquei no cinema (isso tem acontecido cada vez menos). Já com o aguardado “On the Road”, de Walter Salles, não foi assim. É um filme do qual eu queria gostar, como gosto dos Beatniks, dos livros da geração dos vagabundos iluminados. Tecnicamente, é bem feito, mas não consegui enxergar o jovem escritor Sal Paradise nem Dean Moriarty nele. Se eu tivesse visto sem saber que era inspirado no livro autobiográfico de Jack Kerouac, poderia pensar ser sobre escritores quaisquer, borderline um, depressivo o outro, em busca de ajuda (mas se Kerouac e sua turma tivessem recebido ajuda, não estaríamos falando dos beatniks agora... vício do nosso tempo querer diagnosticar tudo e tratar de todos). É gostoso ver a vida de excessos dessas pessoas, mas a influência e a relação da jornada pessoal de Kerouac e seus amigos na sua literatura poderiam estar mais presentes, serem mais exploradas.
Ainda na lembrança permanecem, ao lado dos outros títulos apontados aqui, o argentino “Elefante Branco”, de Pablo Trapero, e “Polissia”, da diretora francesa Maïwenn – o que prova que o cinema ainda contribui fortemente com nossos repertórios visual e narrativo, mesmo nesta era de imagens e de histórias de todo tipo disponíveis em todo lugar. Que seja vigorosa a safra de filmes memoráveis de 2013.