Mas o que há de diferente neste filme? São pessoas andando por Nova York, mostrando suas garras e seus desejos, suas fúrias e convicções. E por que sair de casa, ir até o cinema para ver mais um filme sobre pessoas comuns, ou mais um filme comum sobre pessoas? Por que se passa em Nova York? Por que a imprensa especializada comprou a ideia?
Quando se trata de cinema há sempre a possibilidade da surpresa, de um encantamento novo, um apelo universal pensado por diretores e roteiristas para virar filme. Aqui não parece haver nada novo nesse sentido. A cidade é a Nova York mitificada pelo próprio cinema, os personagens são também os imigrantes, os esperançosos e os apaixonados vivendo as histórias de sempre contadas de maneiras diferentes. Quem viu "Paris, Te Amo" sabia o que esperar. E sabia também que poderia não ser tão bom.
O que se destacou das micro-histórias do filme-dentre as que apelam ao fantástico, ao romance ou ao ritmo frenético da metrópole–foi uma cena, uma aparição, um olhar: o do ator Shia LaBeouf. Ele interpreta o ajudante e filho do gerente de um hotel que, ao carregar as malas de uma cantora para o quarto, desenvolve com ela uma troca de delicadezas. Os dois não apenas se olham, mas se enxergam durante o que se insinua um momento intenso na vida da artista. Há uma ligação instantânea e gostosa de se ver entre os dois. O jovem tem um problema físico e a artista bem mais velha, ainda bela e reverenciada como cantora, busca o olhar e o mistério que também acompanham o personagem de Shia. A química entre os dois revela uma surpresa que não a de um desfecho fantástico, mas um leve desvio que afasta essa história de um óbvio final.