Pierre Verger por Mario Cravo Neto

   Gosto do esforço de escrever quando algo que vejo, escuto ou assisto afrouxa minhas amarras e deixa a escrita fluir sem eu pensar se será lida ou se está correta. O gostar se torna então necessidade. Uma exposição de Mario Cravo Neto causou em mim esse efeito. No Instituto Tomie Ohtake vi a reprodução de um canto da casa do fotógrafo Pierre Verger como esse canto estava quando ele morreu. Um vaso com espadas-de-são-jorge, o cajado do avô do artista, três fotos no chão ao lado de um banco de pedra com seis ou sete pequenas esferas do mesmo material embaixo. A simples harmonia dos gênios revelada num canto da casa desse fotógrafo que adotou o Brasil e fez da própria vida, através das imagens que capturou, uma possibilidade de desnudar o dia a dia para revelar beleza.
   Ao ver esse canto foi como se esse homem gritasse para mim a sua necessidade de achar o belo, não a cínica beleza que esquece ou ignora as causas e os efeitos, mas a que vem da necessidade de seguir em frente apesar desse dia a dia, de encontrar nele mesmo um efeito reparatório, um significado escondido que pode apresentar sentido durante um dia ou um instante.
   Mario Cravo reconstruiu esse pequeno espaço e por causa dele vemos ali, ainda vivo, o pulsar da arte de Verger. O fotógrafo que revelou a África na Bahia e vice-versa.