Personagens limítrofes na loucura do cotidiano
Sandra Corveloni interpreta a voluntária Madá na peça "O Livro dos Monstros Guardados", de Rafael Primot. É o meu personagem do ano. Ao ouvir os problemas de quem telefona em busca de atenção, ela age em nome de um furor solidário e, por conta própria, decide ajudar a quem sofre. Madá nos conta ter salvo do desespero um homem que está em seu limite emocional por nunca ter transado. É num banheiro público que ela marca o encontro. É no papel higiênico rosa e áspero que limpa o rosto depois do sexo que fazem.
Com suavidade e graça Corveloni empresta suas emoções a essa complexa mulher, uma vendedora que busca um sentido maior para a vida. Por essa graça quase perdoamos Madá quando ela atravessa o limite entre o aceitável e a loucura violenta. E quando nos conta seu ato mais extremo, feito em nome dessa solidariedade, vai sumindo a generosidade da moça e aparece a arrogância vinda do subterrâneo das personalidades messiânicas, salvadoras e conhecedoras do que é melhor para o mundo.
É doce o olhar de Madá ao contar com prazer o que ela fez com um suposto pedófilo, e é assustador ouvi-la falar com a calma daqueles que tem certeza de agirem corretamente.
