O investimento na negação da política foi uma das novidades das eleições de 2018 no Brasil. Fortemente ligado à rejeição de partidos e seus antigos atores, ganhou tração com rostos jovens ou aparentemente sem conexão com a política tradicional. Fenômeno legítimo ou estratégia de campanha eleitoral, os atores proclamados como da nova política são devedores das mesmas satisfações e passíveis da mesmas cobranças por parte do eleitor, redes e imprensa.
Algumas décadas atrás, os adjetivos light e diet invadiram as prateleiras para vender aos consumidores alimentos com menos ingredientes. Com menos açúcar e menos calorias, esses alimentos passaram a ser os eleitos de quem desejasse comer melhor e perder peso. O produto estava liberado dentro desses rótulos para quem tinha alguma restrição, capturada pelo mercado para explorar um novo nicho, hoje estabelecido.
Anos depois, a indústria apareceu com um termo novo para algo antigo. O refrigerante que também não tinha açúcar deixou de ser diet para ser zero. Em 2005, as latas e garrafas de Coca-Cola passaram a conter zero daquele ingrediente que fazia mal, engordava, estava out. E o zero que tantas vezes se referia a algo ruim como uma nota, uma pessoa sem qualidades (zero à esquerda), passou a ser um adjetivo explorado pela indústria e indicando zero sódio, zero glúten, agora uma ótima escolha. O zero ganhou status de coisa boa, saudável, ótima para consumir.
Hoje, conhecemos todo tipo de restrição alimentar, desde as que pedem carbohidratos reduzidos na dieta lowcarb até o veganismo praticado por quem acredita ser mais saudável, ou um dever, não sacrificar os animais. Por necessidade ou modismo, o público comprou a restrição e embarcou nessa estratégia.
Recentemente, também na política nos acostumamos com restrições e indigestões na hora de escolher um candidato ou partido, temperadas com o ódio visto nas últimas eleições.
Sob esse aspecto, quando pensamos em eleição, o voto deixa de ser apenas uma escolha, uma opção por alguém (candidato) para ser também uma restrição à outra representação política. Não apenas se escolhe quem merece o voto por gosto, afinidade e confiança, mas para preterir alguém que não se quer engolir de jeito nenhum, alguém com restrições por representar um projeto, uma ideologia indigerível por A ou B.
Além desse comportamento de votar num candidato só para restringir alguém, soma-se o fato de muitos eleitores demonstrarem o esgotamento com a própria atividade política, traduzida na figura do político antigo (tradicional), um eterno portador de promessas nunca totalmente cumpridas, produto que mais ninguém engole. Como resposta a esse enjôo, correram atrás de uma nova embalagem candidatos auto-proclamados não-políticos, tecendo uma solução para se distanciar da intoxicação que o "político profissional" causou nos consumidores. Essa subtração da "experiência política" no currículo ganhou o gosto de parcela do eleitorado e fez triunfar algumas campanhas de candidato zero ou político-zero.
O que é o político-zero
A pretensão do político-zero: ainda é o mesmo produto, está exposto em propagandas e quer o mesmo que os outros (voto e mandato), mas não teria a característica que a população recusa: conchavos, toma-lá-da-cá, nepotismo, embora faça parte do mesmo sistema político (do qual precisa) ainda pouco diferente da engrenagem de antes dos escândalos do Mensalão e da Lava-Jato, propulsores da breve exigência da população por mudanças na forma de fazer política.
Com essa nova embalagem, no que se transformarão após ficarem anos nos cargos, os candidados eleitos e que se definiram não-políticos? Serão assimilados pela política de sempre ou vão causar transformações e reformar o sistema que fez a população sair às ruas?
Ainda: o político zero, depois de eleito, será o gestor que vai agir com capacidade de não destruir seus aliados, fazer coalizões saudáveis, construir conexões com outros políticos e melhorar a vida de grandes países e capitais, além de não fazer baixas traições? O político-zero será capaz de dialogar ou será um assassino de vozes discordantes, e ainda válidas e validadas na política pré-2018?
As importantes votações, o caminhar da agenda do Congresso é ótima tela de oportunidade para se verificar se esse tipo de candidatura vai resultar numa nova maneira de atuar na política, na limpeza e transparência que o brasileiro quer e precisa na atividade pública, ou se é apenas um truque de propaganda e retórica a ganhar votos e alcançar o poder.
Rafael Francisco Fais
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