Rafael Fais - Não gostar de um filme não significa que ele não seja bom. O tempo demorou a passar nas horas em que vi Três Corações e, mesmo com a demora, ficaram perguntas sobre a história das irmãs Sylvie, Sophie e do homem com quem elas se envolvem: o auditor Marc. Os personagens vividos por Charlotte Gainsbourg, Chiara Mastroianni e Benoît Poelvoorde também despertaram minha empatia.
Sylvie conhece Marc num restaurante e ele se mostra vulnerável e solitário quando perde o trem daquela noite para Paris. Os dois ficam juntos num hotel e marcam um segundo encontro_ ao qual ele não vai porque sofre um ataque cardíaco. Ela não sabe o motivo pelo qual Marc a deixa esperando e o desencontro parece ser o que motiva Sylvie a concordar com a mudança para os Estados Unidos ao lado do marido que ela não ama; ou não ama exclusivamente.
Nos 30 minutos seguintes, Marc vai conhecer Sophie quando ela o procura para resolver questões fiscais de seu antiquário. Rapidamente os dois se envolvem e se casam. Não ficou claro para mim o momento em que Marc descobre que as duas são irmãs.
O que está evidente logo no início do filme de Benoît Jacquot é que Marc está atrapalhado com seus sentimentos, no seu limite emocional e precisando de ajuda. Esse homem e sua humanidade vacilante fizeram o filme continuar em minha mente, depois de sair do cinema, assim como a mudança das impressões que tive sobre o personagem criado pelos roteiristas Jacquot e Julien Boivent, ao longo do filme.
As Perguntas
O dilema de Marc é contar ou não contar para sua esposa que ele dormiu uma vez com a irmã dela antes de conhecê-la? O dilema de Marc é arrumar uma maneira de continuar com as duas? Marc não tem dilema e só está estressado por não saber administrar seus sentimentos e o novo arranjo familiar?
Outra: Se as duas não fossem irmãs, Marc teria um dilema?
Quando essas questões se apresentam, o simples auditor deixa de ser um homem honesto com dificuldades emocionais. Ele se transforma num enigma extremamente nocivo, capaz de destruir a relação entre duas irmãs para satisfazer seu desejo. Sylvie pede que ele jamais conte para sua irmã sobre o envolvimento dos dois. "Ela é a coisa que mais importa pra mim". Mas se isso é verdade, por que Sylvie trai a irmã?
São as perguntas e não a sequência dos acontecimentos desse filme que dão valor à história e ao Cinema de Benoît Jacquot. Não ter as respostas faz as questões com que lidam os personagens continuarem presentes depois que o filme acaba.
Empatia Inicial
Ao mesmo tempo em que Marc está sensível e confessa ao médico que sente muito medo, depois de ter uma crise de ansiedade durante a noite, ele não busca a sinceridade que poderia aplacar esse sofrimento. Ele prefere seguir cambaleando entre seus desejos. Tenho pena quando o vejo explicar ao médico que sente muito medo logo que a noite cai. Na madrugada em que Marc desperta ofegante, o médico lhe diz que seus batimentos cardíacos estão normais, o problema seria psicológico. Marc vai se ligar a mulheres que também demonstram não saberem lidar com suas emoções.
O emocional de Sophie é tão consistente que ela chora ao ouvir uma piada e confessa se sentir fragilizada com a partida da irmã. Ela conta à Marc que não sabe se vai resistir ficar sem a irmã. É com essa mesma mulher que ele se casa e trai.
A crueza emocional de Marc é consistente ao ponto dele sobreviver à construção e implosão de um casamento sem relacionar o que sente, sua ansiedade e seu temor constantes, com suas atitudes e escolhas.
Ao mesmo tempo que sinto que o filme demora a acontecer, para Marc tudo acontece rapidamente: ele sobrevive a um ataque cardíaco, se lança na conquista de uma mulher desconhecida, se casa com a irmã dessa mulher, confunde seus sentimentos e os das irmãs, e enfrenta as consequências. Há ainda o enfrentamento com um político poderoso e o desfecho. Mas o que distingue esse filme é o fato de que Marc, Sophie e Sylvie não nos contam tudo. Não sabemos muito sobre eles, praticamente nada conhecemos sobre seus passados. Quando Sophie volta do hotel, da única noite passada com Marc, ela arruma as malas e não sei se a intenção é a de deixar o marido, ou a de ir para os EUA com ele. A sensação nessa cena é de ter perdido algo durante o filme. Talvez porque ao assistir Três Corações acompanhamos momentos de três pessoas que se perderam em algum ponto de suas vidas.
Sylvie está triste e decide continuar com o marido depois de se lançar aos braços de Marc, que não vem ao seu encontro.
Sophie está triste e decide deixar o marido para viver com Marc.
Sylvie continua triste e decide manter seu casamento depois de ficar à espera de Marc, que não vem ao seu encontro porque seu coração pifou.
Marc está triste porque sente muita coisa por essas duas mulheres que deseja, mas não consegue ficar de verdade com nenhuma delas. São desejos que oscilam entre o nada e a plenitude.
Benoît Jacquot parece ter desenhado um mapa para amantes perdidos. Vale seguir seus traçados, mesmo que ao local de destino seja demorado chegar.
Rafael Fais
Sylvie conhece Marc num restaurante e ele se mostra vulnerável e solitário quando perde o trem daquela noite para Paris. Os dois ficam juntos num hotel e marcam um segundo encontro_ ao qual ele não vai porque sofre um ataque cardíaco. Ela não sabe o motivo pelo qual Marc a deixa esperando e o desencontro parece ser o que motiva Sylvie a concordar com a mudança para os Estados Unidos ao lado do marido que ela não ama; ou não ama exclusivamente.
Nos 30 minutos seguintes, Marc vai conhecer Sophie quando ela o procura para resolver questões fiscais de seu antiquário. Rapidamente os dois se envolvem e se casam. Não ficou claro para mim o momento em que Marc descobre que as duas são irmãs.
O que está evidente logo no início do filme de Benoît Jacquot é que Marc está atrapalhado com seus sentimentos, no seu limite emocional e precisando de ajuda. Esse homem e sua humanidade vacilante fizeram o filme continuar em minha mente, depois de sair do cinema, assim como a mudança das impressões que tive sobre o personagem criado pelos roteiristas Jacquot e Julien Boivent, ao longo do filme.
As Perguntas
O dilema de Marc é contar ou não contar para sua esposa que ele dormiu uma vez com a irmã dela antes de conhecê-la? O dilema de Marc é arrumar uma maneira de continuar com as duas? Marc não tem dilema e só está estressado por não saber administrar seus sentimentos e o novo arranjo familiar?
Outra: Se as duas não fossem irmãs, Marc teria um dilema?
Quando essas questões se apresentam, o simples auditor deixa de ser um homem honesto com dificuldades emocionais. Ele se transforma num enigma extremamente nocivo, capaz de destruir a relação entre duas irmãs para satisfazer seu desejo. Sylvie pede que ele jamais conte para sua irmã sobre o envolvimento dos dois. "Ela é a coisa que mais importa pra mim". Mas se isso é verdade, por que Sylvie trai a irmã?
São as perguntas e não a sequência dos acontecimentos desse filme que dão valor à história e ao Cinema de Benoît Jacquot. Não ter as respostas faz as questões com que lidam os personagens continuarem presentes depois que o filme acaba.
Empatia Inicial
Ao mesmo tempo em que Marc está sensível e confessa ao médico que sente muito medo, depois de ter uma crise de ansiedade durante a noite, ele não busca a sinceridade que poderia aplacar esse sofrimento. Ele prefere seguir cambaleando entre seus desejos. Tenho pena quando o vejo explicar ao médico que sente muito medo logo que a noite cai. Na madrugada em que Marc desperta ofegante, o médico lhe diz que seus batimentos cardíacos estão normais, o problema seria psicológico. Marc vai se ligar a mulheres que também demonstram não saberem lidar com suas emoções.
O emocional de Sophie é tão consistente que ela chora ao ouvir uma piada e confessa se sentir fragilizada com a partida da irmã. Ela conta à Marc que não sabe se vai resistir ficar sem a irmã. É com essa mesma mulher que ele se casa e trai.
A crueza emocional de Marc é consistente ao ponto dele sobreviver à construção e implosão de um casamento sem relacionar o que sente, sua ansiedade e seu temor constantes, com suas atitudes e escolhas.
Ao mesmo tempo que sinto que o filme demora a acontecer, para Marc tudo acontece rapidamente: ele sobrevive a um ataque cardíaco, se lança na conquista de uma mulher desconhecida, se casa com a irmã dessa mulher, confunde seus sentimentos e os das irmãs, e enfrenta as consequências. Há ainda o enfrentamento com um político poderoso e o desfecho. Mas o que distingue esse filme é o fato de que Marc, Sophie e Sylvie não nos contam tudo. Não sabemos muito sobre eles, praticamente nada conhecemos sobre seus passados. Quando Sophie volta do hotel, da única noite passada com Marc, ela arruma as malas e não sei se a intenção é a de deixar o marido, ou a de ir para os EUA com ele. A sensação nessa cena é de ter perdido algo durante o filme. Talvez porque ao assistir Três Corações acompanhamos momentos de três pessoas que se perderam em algum ponto de suas vidas.
Sylvie está triste e decide continuar com o marido depois de se lançar aos braços de Marc, que não vem ao seu encontro.
Sophie está triste e decide deixar o marido para viver com Marc.
Sylvie continua triste e decide manter seu casamento depois de ficar à espera de Marc, que não vem ao seu encontro porque seu coração pifou.
Marc está triste porque sente muita coisa por essas duas mulheres que deseja, mas não consegue ficar de verdade com nenhuma delas. São desejos que oscilam entre o nada e a plenitude.
Benoît Jacquot parece ter desenhado um mapa para amantes perdidos. Vale seguir seus traçados, mesmo que ao local de destino seja demorado chegar.
Rafael Fais